Religião e Estado 28 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

 África Central e Oriental 7  - 




O trecho a seguir do livro de CADORNEGA, descreve um cerimonial dos nativos da Angola do século XVII, em que se invocava a divindade de sua crença para solucionar problemas, indicar remédios(mezinhas) para doenças e clamar por chuva.

 

Também em Cacova sucedeu (p. 75-76/703-704pdf) -  que dois soldados, que estavam dormindo ouviram, de noite, nos outeiros que estão pelas costas muita matinada e algazarra do gentio; e, como já tinham algum conhecimento das coisas da terra, logo entenderam o que aquilo vinha a ser que era sacalar ou xaquetar, que é invocar o Diabo e chamá-lo para que dê distinção ou solução ao que pretendem saber, ou lhe aponte mezinhas para curarem seus males, ou senão chove lhe dê água, como se nada disto estivera na sua mão, senão na de quem criou o céu e a terra. Estes dois conquistadores com resolução soldadesca foram com o maior silêncio que puderam, chegando-se aquele diabólico ajuntamento,  e como estavam divertidos ouvindo o Pai das maldades, os nossos portugueses ouviram, mas não entenderam, mais que ouvir aquela voz rouquenha, e medonha; e, pelo que entenderam os negros que com sigo levavam, lhes disse que ele não podia falar como quisera porque o estavam ouvindo gente contraria, que não eram do seu grêmio: com isto se levantaram alguns da quadrilha e buscarão pelas matas quem ouvia de fora, e deram com os dois aventureiros curiosos, começaram aqueles gentios de se alvorotarem, e eles os sossegaram dizendo-lhe que queriam ver de mais perto aquele aquém eles festejavam, tanto para se certificarem de suas coisas; foram se chegando com deliberação e ânimo e foi ele de sorte que disseram para onde soava aquela voz rouca, que se ele era o que aqueles seus diziam, que o mostrasse em lhe tirar das mãos umas contas que um deles levava: de improviso viu as mãos sem elas ou o temor lhas fez perder, com que vendo isto deram sobre o ajuntamento com alguns seus escravos já batizados que os acompanhavam e os dispararão do sitio afugentando-os, deixando o muito comer que tinham, para no fim festejarem sua festa e lhe fazerem oferendas e sacrifícios do gado que para isso tinhão, de que os nossos portugueses e sua gente se aproveitou, e poderia ser que isso os levasse àquela aventura; (...).


(esta é uma continuação  aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de

CADORNEGA - , Antônio de Oliveira de.
História Geral das Guerras Angolanas – 1680Tomo III  -  - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)


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