Religião e Estado 39 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

 África 18 - 




Neste trecho do livro de CADORNEGA, ele faz uma narrativa que talvez seja uma das primeiras a tratar de imaginárias metamorfoses de humanos para macacos ou vice-versa: de relações entre macacos e humanos teria nascido um ser híbrido. Esta narrativa frequentou o imaginário das pessoas até meados do século XX. Havia atrações circenses e eu mesmo, nos anos 60, vi um ônibus transformado em uma diminuta sala de espetáculos, com uma jaula no lugar de palco, na qual uma mulher se transformava em macaca. Um grande e saudoso amigo de infância, me contou ter visto este espetáculo e imitava os pulos da mulher-macaca. Nunca soube se ele viu o espetáculo ou o imaginou. Um episódio envolvendo estas relações íntimas entre macacos e humanos foi  narrado no livro O Macho Demoníaco, p 171 (Richard WRANGHAM & Dale PETERSON, 1998). 

Vamos à narrativa de CADORNEGA:

Em os caminhos de reino de Congo e seus pumbos, há monos ou bugios (O Autor emprega estes  termos — monos ou bugios — para designar várias espécies de macacos, gorilas e chimpanzés) tamanhos e tão atrevidos e desaforados, que vêm àquelas estradas a buscar a gente feminina, que por elas passam, para coabitarem com elas; e é necessário irem mui bem acompanhadas de varões, para as livrarem de semelhantes acontecimentos; e sucedeu apanharem algumas desgarradas e irem-se para elas, e para se defenderem as matarem a puras dentadas; e dizem houve alguma que forçada consentiu para se livrar do perigo da morte, e gerarem contra a ordem da natureza, sendo de diferente espécie; e se viram monstros destes ajuntamentos, e algum viu o Autor de casta de monos que com estar prezo em uma boa corrente, fixa em uma arvore, em vendo uma mulher fazia muita diligência para lhe chegar, e não fazia tanta força para os homens; e se acaso com o muito puxar se lhe quebrava a cadeia, ia para elas com muita presteza, buscando-lhes as partes baixas, e quando mais não podia, que acudia gente, as mordia terrivelmente, em quanto lhas não tiravam das mãos, e fazia tiros com pedaços de pau, como os pudera fazer qualquer pessoa; e por isto que lhe vê fazer o gentio destes reinos a esta casta de animais dizem que não falam por não trabalharem (O indígena continua a fazer esta mesma observação a respeito dos macacos, e modernamente acrescenta outra equivalente e mais atualizada; diz que não falam ou não querem ser gente para não pagarem imposto ao Maniputo como os pretos.)


(esta é uma continuação  aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA - , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo III  -  - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)




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