sexta-feira, 2 de abril de 2010

Via Sacra 3






A Via Sacra era basicamente encenada. Não havia diálogos entre os personagens, limitando-se o áudio às narrativas de um locutor (Silvio Kurtz, por muito tempo) e à trilha sonora.

Via Sacra 2



Quando meu pai morreu, em 1978, passei a dirigir a Via Sacra. Fiz algumas modificações, especialmente nos figurinos. Muitas das estações aconteciam sobre um palco, que era montado no começo da encenação, ao vivo. Os atores eram recrutados entre meus alunos ou no grupo de jovens da Igreja. Da mesma forma que meu pai fazia, após a Via Sacra eu ia nas casas que tivessem sacada, pedir autorização para a Verônica cantar, na procissão à noite.
Acima, Jornal de Santa Catarina e Jornal A Notícia de março de 1982.

Via-Sacra 1



Até 1967 se fazia a descida da cruz num calvário montado ao lado da Igreja. A partir de então, a encenação passou a ser dentro da Igreja e nunca mais foi erguido o calvário de madeira. Esta segunda metade da década de 60, em Itajaí, deve ter sido um tempo de decadência econômica. Caiu a exportação de madeira, o Banco Inco, cuja Matriz era na cidade, foi vendido para o Bradesco (seguindo-se a conseqüente demissão de muitos empregados do alto escalão), a contratação dos serviços de Despachante Aduaneiro passou a ser facultativa (Decreto-Lei nº 37, de 18/11/1966). Em nível nacional, a inflação já atingira níveis preocupantes (o Decreto-Lei Nº 1, de 13/11/1965 institui o cruzeiro novo) e começava, em 1967, a reação ao Golpe de 64.
Em 1972 meu pai escreveu e dirigiu a encenação da Via-Sacra. Eram 14 estações, que terminavam com a ressurreição de Jesus. Ela foi encenada sob a direção de meu pai até 1977. Em 1978, com a morte de meu pai, passei a dirigir a encenação até 1984, quando me mudei de Itajaí.
Sob a direção de meu pai, os atores se vestiam com uma túnica (havia túnicas vermelhas, verdes e roxas), com uma cruz dourada nas costas (foto acima). A Via Sacra começava às 10 horas da manhã. Terminada a Via-Sacra, cerca de 11h30min, se ia nas casas com sacada pedir autorização para a Verônica cantar à noite.

Calvário de Madeira



Em tempos em que não havia televisão, era costume dormir cedo. Mesmo na Sexta-Feira Santa, que era antecedida por uma noite de muitas atividades na Igreja, se acordava bem cedo. Então, tomávamos o café da manhã e íamos, eu e meu pai, para a Igreja. Eu deveria ter uns quatro ou cinco anos, pois lembro que não tinha idade para ser coroinha (estávamos nos primeiros anos da década de 1960). No largo da Matriz já estava praticamente pronta a estrutura do Calvário. Não lembro quando começavam a construir, mas devia ser na Quita-Feira Santa. Era uma armação de madeira imitando um morro. Em alguns anos, a subida era por uma escada (de madeira, com degraus etc) que contornava a parte da frente do monte. Em outros anos era uma rampa (mais difícil de subir e descer) – ver as fotos acima. Estas mudanças ocorreram num intervalo de 4 ou 5 anos.
Creio que o Calvário de madeira tinha uns 3 ou 4 metros de altura (ver as fotos acima). Isto porque, na parte de baixo, era feito o Sepulcro. Assim, se fazia a descida da Cruz, a procissão do Senhor Morto e, na volta, a imagem era depositada neste Sepulcro (ou seja, debaixo do calvário se fazia uma imitação de gruta, com um nicho, onde era depositada a imagem do Senhor Morto). O calvário de madeira ficava do lado esquerdo de quem olha a Igreja Matriz do SSmo. Sacramento e o nicho ficava também do lado esquerdo da gruta.
A armação de madeira era forrada com um tecido cinza, que imitava granito, sobre o qual eram colocados diversos arbustos naturais, para imitar a vegetação do Gólgota. O custo de tudo isso devia ser alto: madeira, tecido, vegetais, mão de obra... A reiterada construção do calvário, ano após ano, até fins da década de 1960, demonstra a riqueza de Itajaí naquele tempo. Suponho que a madeira era fornecida, provavelmente de graça, pelas inúmeras madeireiras que existiam (a cidade tinha um porto que exportava muita madeira); o tecido talvez fosse doado pela Tecita (Tecelagem Itajaí) e a mão de obra talvez também fosse de graça. Mas isto são suposições. Nunca me ocorreu perguntar isso para as pessoas que realizavam a obra: primeiro que, quando eu era criança, a informação não me importava; e, quando a informação passou a me importar, as pessoas que poderiam ma dar já haviam morrido.
A ida de meu pai de manhã se destinava a supervisionar a obra e ensaiar a encenação da descida da cruz. Eu, como se dizia na época, ia somente piruar. Depois de ensaiar a descida da cruz (os “atores” eram ou alunos de meu pai ou eram jovens da comunidade), eu acompanhava meu pai na visita às casas que tinham sacada, para pedir aos donos autorização para a Verônica cantar à noite).

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Sexta-Feira Santa

As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707, não traziam muitas determinações sobre eventos da Sexta-Feira Santa. O Código de Direito Canônico hoje em vigor pouca coisa fala além da declaração de que a Sexta-Feira Santa é um dia de penitência. Mas, ainda assim, as normas das Constituições Primeiras eram seguidas até a década de 1960, alguma coisa restando até hoje. Talvez por isso é que os Padres participavam pouco das encenações e assemelhados. Até porque estavam muito ocupados com as confissões, já que havia filas intermináveis para cumprir a obrigação quaresmal.
As Constituições Primeiras determinavam que houvesse um Ofício Divino de manhã: exortamos a nossos súditos que, da Quinta Feira, depois de se expor o Santíssimo Sacramento, até ser acabado na Sexta Feira o ofício da manhã, se abstenham de trabalhar, ao menos em público e freqüentem a Igreja acompanhando o Santíssimo Sacramento com muita devoção e reverência (parágrafo 374). Determinavam, ainda, que na Sé Metropolitana, depois do Ofício da Sexta-Feira Santa, como é costume, se fará a Procissão do Enterro e ficará o Senhor no túmulo até o dia de Páscoa, alumiado sempre com cera bastante; e, nas mais Igrejas de nosso Arcebispado não ficará o Senhor até o dito dia... (par. 119).
Na Sexta-Feira também deveria haver a adoração da Cruz. Da Quinta-Feira Santa até que se começasse o Gloria in excelsis Deo, no Sábado Santo, não poderia ser usada campainha, nem dado sinal ou repique nos sinos (parágrafo 121). E esta regra era seguida, pois, na Sexta-Feira Santa, só se tocava matraca, em vez da campainha. Eu mesmo cheguei a tocar matraca, como coroinha.
Até a década de 1960 a Sexta-Feira Santa era um dia de luto na cidade. As rádios só tocavam músicas fúnebres ou, quando muito, clássicas. Para se ter uma idéia do mortório que era, havia a expressão "clima de Sexta-Feira Santa" para indicar um ambiente de tristeza ou infelicidade.

Quinta-Feira Santa 3



O clima de meio feriado, meio dia santo não permitia que meu pai estivesse na Igreja desde a manhã da Quinta-Feira Santa. Pelo menos de manhã se trabalhava. À tarde, depois de ele dormir um soninho e tomar o café da tarde, íamos para a Igreja. Era o que acontecia desde que me tinha por gente, ou seja, começo da década de 1960, em Itajaí/SC.
Chegávamos de tarde e dona Gélia já estava enfeitando o altar. Dizia meu pai que ela custeava de seu dinheiro a ornamentação (basicamente flores e, talvez, vasos e outros adereços). Enfim, Dona Gélia doava seu tempo e seu dinheiro para a Igreja. Dona Gélia era uma mulher muito bonita, sempre bem arrumada. Creio que ela nunca casou.
Chegávamos à Igreja. A Semana Santa era um tempo de muita agitação para a Igreja. Então se preparava o lavapés. Eram rapazes que faziam as vezes de atores, se vestindo de Apóstolos. A mesa onde eles sentavam era feita especialmente para a ocasião. Raramente se usava a do ano anterior. Naquele tempo a madeira abundava em Itajaí, pois o Porto era o maior exportador de madeira da América Latina e a cidade tinha muitas madeireiras. Assim, não era difícil que alguém doasse uma mesa de madeira novinha. Meu pai fazia o ensaio e, de noite, o Sacerdote, com um conjunto de jarra e bacia de porcelana branca com bordas verdes, lavava os pés dos Apóstolos. Na verdade, um membro da Irmandade do Divino Espírito Santo carregava a bacia, outro membro a jarra. A jarra e a bacia me pareciam enormes, mas depois vi que eu é que era pequeno. Derramavam água nos pés dos Apóstolos e o Sacerdote enxugava seus pés. Por volta de 1970 a Irmandade reivindicou o lugar dos Apóstolos. Ponderou-se que eram sempre os Irmãos que estavam presentes nas cerimônias e que os rapazes atores eram recrutados para a ocasião (meu pai os recrutava entre seus alunos). A ponderação foi aceita e, dali para frente, os Irmãos tomaram o lugar dos rapazes atores. Os irmãos da Irmandade do Santíssimo Sacramento usava uma opa igual à usada em Braga, Portugal (pelo homem de trás do que carrega o Guião, que está de gravata azul e branca a foto foi extraída do programa da Semana Santa de Braga de 2010, que me foi remetido por J.Miguel Galaghar).
Quando comecei a acompanhar meu pai, eu devia ter uns cinco ou seis anos, idade insuficiente para ser coroinha. Mas, tão logo completei sete anos (ou oito – não lembro bem), que era a idade mínima para ser coroinha, passei a participar mais ativamente da cerimônia da Quinta-Feira Santa.
Havia uma divisão de tarefas para os coroinhas, conforme seu tempo de atividade. Os mais novos, nada faziam enquanto esperavam o momento de levar galhetas e toalhas para o Sacerdote. Os mais velhos tocavam sino e os mais velhos ainda, agitavam o turíbulo. Com alguma sorte, os mais novos podiam segurar o porta-incenso (um recipiente prateado, em forma de gôndola, engastado num pedestal, com duas portinhas que abriam para cima; dentro se depositava o incenso, que era tirado dali para o turíbulo com uma colherinha, que fazia parte da peça). Tive oportunidade de segurar este porta-incenso durante a cerimônia de Quinta-Feira Santa, o que me permitiu observá-lo atentamente.
Então transcorria toda a cerimônia. No final, se fazia o traslado do Santíssimo Sacramento do altar mor para um altar lateral, que era o reservado à Nossa Senhora durante o ano. Era uma procissão que percorria toda a igreja e depois parava na frente daquele altar, que possuía o sacrário, ou seja, o cofre de que falam as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. Então, a Igreja Matriz de Itajaí tinha pelo menos dois cofres para guarda o Santíssimo, ou dois sacrários: um no altar mor e um no altar secundário (este altar aparece na foto acima, atrás da imagem de Nossa Senhora das Dores).
Depois eu voltava para casa com minha mãe, pois meu pai ficava na adoração do Santíssimo até a madrugada. Numa destas voltas para casa, minha mãe esqueceu de pegar a chave com meu pai. Chegamos em casa e ficamos matutando na varanda. Até que alguém sugeriu que eu entrasse na casa, passando pela grade da janela. Eu devia ter uns sete anos. Fui colocado grade a dentro, abri a janela, peguei uma chave que ficara em casa, abri a porta e todos entraram. Ficamos aguardando meu pai e sua aprovação ou reprovação do ato. Ele chegou e achou tudo muito engraçado.
Depois que eu e meus irmãos cresceram, minha mãe passou a ficar também na adoração. E depois que meu pai morreu, ela continuou indo. Um dia minha mãe chegou em casa contando que um senhor, muito conhecido na cidade, ficou tempo demais na adoração e teve um descontrole esfincteriano. Ficamos preocupados que isto traumatizasse uma pessoa tão estimada na cidade. Mas, na Sexta-Feira Santa à tarde já o vimos passeando de carro. Como deveria ser, encarou naturalmente o incidente.

Quinta-Feira Santa 2



A Quinta-Feira Santa é o dia da Instituição da Eucaristia. As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (parágrafos 115 a 122) determinavam que, neste dia, houvesse confissão dos fiéis, sagração dos óleos (de crisma, dos catecúmenos e dos enfermos), a cerimônia do Lavapés e mais Ofícios Divinos. O Santíssimo Sacramento devia ser exposto, acompanhado, vigiado e assistido, de dia e de noite. As Constituições também diziam que, neste dia, junto com a Hóstia deveriam ser guardadas partículas consagradas para serem levadas aos enfermos. Isto porque não havia e não há missa entre quinta-feira Santa e o Sábado (e, portanto, não há consagração), de modo que, se algum doente precisar comungar, há que se ter partículas consagradas. Ainda segundo as Constituições, as partículas seriam guardadas junto com a Hóstia, no mesmo cofre em que fosse exposto o Santíssimo Sacramento ou na mesma âmbula (a âmbula é o ostensório, provavelmente).
Acima, ostensório na Catedral da Valência (Espanha) e os parágrafos 115 a 118 das Ordenações.