Religião e Estado 31 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

África 10 - 


Aqui é narrado mais um episódio de encantamento de crocodilo, no qual um crocodilo devolve uma mulher que engoliu, para que esta seja condignamente sepultada.

Segundo CADORNEGA, existem dois modos de se prevenir dos crocodilos: um é fazer uma estacada de pau a pique, todas as estacas muito juntas, enfiadas no leito da lagoa, para que se possa pegar água dentro destas estacas sem ser atacado pelos crocodilos; o outro modo é retirar a água com uma cabaça presa numa vara comprida. Uma certa mulher, entretanto, não se utilizou de nenhum destes expedientes e, tão logo colocou a mão dentro d’água, o crocodilo dela se aferrou, levando-a para ser devorada nas profundezes da lagoa. E, diz CADORNEGA, a mulher morreu sem sepultura eclesiástica (p. 131/739pdf). 

Mas, sabendo os nativos do grande desgosto da senhora da negra que morreu,   foram chamar um negro de fama que eles conheciam por encantador ou feiticeiro, que vem a ser o mesmo, e lhe pediram fizesse com que aparecesse aquela negra para sequer ter esse gosto sua senhora em dar-lhe sepultura, que lhe pagariam muito bem: fez o negro suas cerimônias e conjuros, com que o lagarto, ou outro revestido na sua pele, a trouxe à borda da água morta, já comida alguma parte, à vista tudo da gente portuguesa, que por ali estava em suas sementeiras; tirando-a os negros, levando-a a sua senhora, que muito lhe queria, a mandou sepultar; ao negro magico lhe deram passagem por ser ainda gentio idolatra e não batizado.

(esta é uma continuação  aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA - , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo III  -  - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)



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