
A televisão chegou em Itajaí por volta de 1966. Era a TV Paraná, Canal 6, de Curitiba. Funcionava por uma repetidora, localizada em Armação do Itapocoroi. Segundo me falavam, quem montou a repetidora foi o "Seu" Nereu Schiefler". Não sei se montou a repetidora por conta própria, ou com alguma verba pública ou subscrição comuntária. O fato é que ele era tido como uma espécie de "dono" ou "administrador" da repetidora.
Também não sei se esta repetidora foi feita com autorização do DENTEL, mas o fato é que, chegou um dia que não tinha mais televisão em Itajaí. Disseram-me que "o Governo" dera 24 horas para que o "Seu" Nereu entregasse a repetidora desmontada. Na ditadura militar era assim: fecha, traz aqui e agora! Nada de notificação prévia, direito de defesa, contraditório; nada de mandado de segurança, garantias de acesso a justiça etc. Era na base do "escreveu não leu, o pau comeu".
Dias depois o problema foi resolvido e voltamos a ter televisão.
A chegada da televisão foi um acontecimento na cidade e na minha vida. A tal ponto que, minha tia, Nita, confeitou o bolo do meu aniversário de 9 anos com o bonequinho da Tupi e da TV Paraná (as duas tinham ou o mesmo símbolo ou um símbolo parecido: o curumim). O bolo é o da foto acima.
A programação começava às 16 horas e terminava por volta da 1 da manhã ou da meia-noite.
Quando a TV chegou em Itajaí, estava passando a novela O Direito de Nascer, que, até então, acompanhávamos pelo rádio (acho que a Rádio Difusora reproduzia os capítulos em disco ou em fita de gravador). Pois passamos a ver a novela na televisão (em preto e branco, claro). Mas a produção era da própria TV Paraná, com o seu "Elenco de Ouro", formado por artistas de Curitiba.
Até a TV chegar a Itajaí, a gente ouvia rádio até umas 20h30min e, por volta das 21h ia dormir. Com a chegada da televisão, havia toda uma programação a ver. Mas, de início, como os aparelhos eram caros, havia a "televizinho", ou seja, a televisão do vizinho. No nosso caso, era a televisão do Tio Ary. Depois de um tempo, meu pai comprou uma televisão usada, de outro tio meu. E a ocupação das noites era ver televisão.
Eu sabia a programação de cor: segunda, O Fino da Bossa; Terça, Chico Anysio Show; quarta, Corte Real Show; quinta, Bonanza; Sexta, Viagem ao Fundo do Mar (que depois deu lugar a Perdidos no Espaço), sábado O Marcado e, depois, O Homem de Virgínia. Seguindo-se ao seriado do virginiano, Rio Hit Parade. Domingo, Jovem Guarda.
Depois da novela O Direito de Nascer, o Elenco de Ouro da TV Paraná produziu uma ou duas novelas e logo a emissora passou a reproduzir as novelas da TV Tupy. Mas o VT vinha de São Paulo para Curitiba de avião, de modo que, se não havia teto, não havia novela. Ou se reprisava o capítulo anterior, ou era passado um filme. Muitas vezes se ficava dias a fio sem novela e só com filme, pois não havia mais quem aguentasse as reprises.
Havia uma revista publicada em Curitiba chamada TV Programas e um apresentador de lá chamado Willian Sade, feio, mas muito simpático. Por isso que, numa entrevista que deu para a revista TV Programas, disse uma coisa que não esqueci até hoje (até porque constava da propaganda da revista na TV): "Quem vê cara, não vê televisão".
Mas minha vida televisiva não era muito tranquila. Como eu assistia a quase todos os programas que iam até dez horas da noite, minha mãe dizia que aquilo era muito pesado. Era, dizia ela, "como colocar um motor de fenemê num fuqui". Fenemê era o FNM (Fábrica Nacional de Motores), marca do maior caminhão que se via nas ruas de Itajaí. Fuqui era como chamávamos o Fusca. Logo, na região do litoral de Santa Catarina, não se conhecia o nome "Fusca", só Fuqui.
E eu ficava pensando como seria possível colocar o motor de um Fenemê num Fuqui... Será que o Fuqui sairia em disparada? Será que se esgaçaria todo e desabaria? Não sabia, só tinha uma certeza: aquela programação produziria um grande estrago na minha cabeça...
Felizmente, este estrago nunca ocorreu.
Meu maior drama era aos sábados: chegava em casa, das brincadeiras, por volta das 18 horas. Era quando passava a série O Marcado. Mas a hora era a de tomar banho, pois se jantava às 19h. Então ficava aquela tensão: ver o programa ouvindo minha mãe lembrando a hora do banho... Grandes problemas aqueles...
Depois, do banho, janta e sentar de novo no sofá para ver O Homem de Virgínia...
Anos mais tarde, revi o velho seriado do virginiano... Uma decepção: a qualidade do filme era diretamente proporcional ao tamanho da minha imaginação...