Religião e Estado 32 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

 África 11 - 



Dando continuidade aos antecedentes culturais da religiosidade brasileira e da relação pretérita entre religião e Estado, prossigo nos extratos do livro de CADORNEGA sobre Angola no século XVII

Nesta postagem reproduzo as narrativas de CADORNEGA sobre os ritos dos jagas e dos ambundos. Os jagas eram uma tribo centro-africana que CADORNEGA descreve como muito violentos e em constante guerra. Os jagas viviam constantemente em quilombos que, na África Central, eram os acampamentos de guerra. CADORNEGA descreve especialmente o culto aos mortos por parte dos Ambundos. São também mencionados instrumentos e bebidas rituais e o modo de serem usados. Vamos à narrativa de CADORNEGA.

Não observam tanto estes Jagas como o gentio de Angola e mais sertão a adoração dos ídolos; só o que têm em grande veneração e respeitão muito é o que chamam seus quiculos, que vêm a ser os ossos dos seus antepassados, que foram seus senhores, tendo-os em grande veneração, e lhe fazem muitos sacrifícios de gentio e animais, derramando-lhes muito vinho, assim de Portugal, como de palma 

O que estes Jagas fazem pelo contrário, que o que ofertam aos seus defuntos ali fica o vinho derramado e a gente e animais ali também seu sangue derramado e degolados, sem deles comerem, antes será, se tal fizerem um crime grande, e dali vai para o monturo, que no sangue que derramam é que tem para si se sustentam aqueles seus senhores; o que tem o gentio ambundo pelo contrário, que comem o que oferecem e só derramam algum vinho e o sangue das rezes, que matam dos seus ídolos, ou nas sepulturas ou embilas (Sepulturas, do kimbundu, mbila) de seus defuntos. Todas as coisas destes Jagas, e negócios mais importantes, assim de guerra como de paz, consultam com seus senhores defuntos e cadáveres, a que lhe  dá suas soluções, ou Satanás por eles, metendo-se aquele espírito mau em um daqueles Jagas a que chamam xingiles (Xinguilador,   vocábulo   aportuguesado   formado   do   verbo kuxingila, magnetizar), que tem o mesmo nome daquele seu senhor defunto, e seguem seus ditames e resoluções como se fosse seu senhor, que presente estivesse.

Quando ao seu Arraial vai algum embaixador de rei, ou apotentado, o saem a receber fora do quilombo, onde chamam as varandas, levando como em procissão, mas diabólica, todos os cofres em que têm as negregadas relíquias dos seus senhores defuntos, ornados de ricas sedas, e acompanhados de toda a gente principal, com muito gentio de guerra de sua guarda, e toda a matinada de vários instrumentos assim por fazerem aquela honra e obséquio ao embaixador que vem, como por terem para si que com tais defensivos se livraram do mal que pelo tal embaixador lhes poderá vir, e acertarão em que tudo o que com ele tratarem; ao qual primeiro que fale em coisa nenhuma do a que vem, lhe dão uma bebida, que o senhor do quilombo e os seus também bebem primeiro, composta de miolos de gente, ervas, e outras boxinifadas (Adiante, quando descreve os «ritos» dos jagas, emprega o Autor com o mesmo significado a palavra — moxinifada—, mistura de ingredientes vários, vocábulo registado nos dicionários.); e usam desta bebida e barbaridade por dizerem e terem para si, que com aquela tão saborosa vez para eles alegra o coração daquele embaixador e deles, e é um grande antídoto e preservativo para uns e outros; e há de beber infalivelmente, ainda que nas suas terras e senhorios se não use; só com os do governo deste reino, que vão aquele quilombo enviados, o não usam pelo respeito que nos têm, que se assim fora, não iria lá nenhum.

Quando estes Jagas, de quem falamos, saem a suas conquistas, levam também consigo parte dos mosetes ou cofres que veneram e têm para si, são os que lhe dão todo o esforço e valor para vencerem a seus inimigos e no que conquista boa fortuna; também em quem levam muita confiança é no instrumento de guerra, que todos os quilombos de Jagas têm, a que chamam a lunga [Os jagas lhe chamam lunga, e os Ambundos de Angola machuco, e têm a mesma superstição em o enlambuzar em sangue humano a que acode toda a guerra preta em se tocando. (Nota marginal do Autor)], que é um chocalho grande de ferro que, tocado por fora com um maço de pau, soa muito longe; a este instrumento bélico fazem muitos sacrifícios de gentio, enlambuzando-o no seu sangue e outras mais superstições; e quando sucede perderem alguma empresa de guerra, que nem sempre se ganha, o atribuem a que não deram de comer a lunga pelo estilo que temos dito de sangue humano, nem fizeram as oferendas aos seus quiculos antepassados, e lhos fazem de novo, assim a lunga como a eles, para os terem propícios; e têm nisto grande crença, mais que em nenhuns de suas erronias e ritos de sua seita de Jagas: (...).

(esta é uma continuação  aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680Tomo III  ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)



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