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Mostrando postagens de agosto, 2009

Prisão Resolve? (2)

A prisão, ou outra pena tem, segundo o artigo 59 do Código Penal , a finalidade de punir e servir de exemplo para que outros não cometam crimes. A pena é, portanto, um consequência desagradável e indesejada para o crime. Assim, imagina-se como pena aquilo que possa dissuadir alguém de cometer um crime. Os castigos corporais (açoites, cortes de membros etc) funcionaram melhor para dissuadir as pessoas de cometerem crimes? Não sei se há pesquisas científicas sobre isso, mas o fato é que este é o ponto: como implementar ameaças para o não cometimento de crimes. A prisão é uma tentativa de punição, surgida no Século XIX [ver em "Prisão Resolve (1)?]". Tem funcionado? Em alguns casos sim, outros não. No Brasil, dizer que o sistema prisional está falido é falta de visão histórica. Só vai à falência alguma coisa que funcionou. E, como vimos em "A Prisão Resolve? (1)", nosso sistema prisional funcionou mal desde o início. E o que pensar do sistema punitivo das O...

Prisão Resolve? (1)

Quando ouço pessoas ou leio opiniões sobre a pena de prisão, fica-me a impressão de se pensa que a pena de prisão foi algo que sempre existiu. Quando falo em pena de prisão, quero me referir ao tempo que alguém tem que passar preso, como punição a um crime, tempo este que se quer proporcional à gravidade do crime. Acontece que a pena é uma forma recente de punir as pessoas. A pena de prisão, como forma de punição de delitos, foi introduzida no mundo no século XIX (PACHUKANIS. A teoria geral do direito e o marxismo. Trad. Soveral Martins. Coimbra, Centelha, 1977, p. 236) No Brasil, até 1830, o tempo que se passava numa prisão se destinava apenas a aguardar a pena definitiva. Os crimes e as penas constavam do Livro V das Ordenações Filipinas . PRISÃO NAS ORDENAÇÕES FILIPINAS As Ordenações Filipinas não previam a prisão como pena. O acusado permanecia preso até a sentença, quando então era executada a pena (Livro V, tít. CXVII , §§ 12 a 19 e tít. CXXII ). Nos raros casos em que havia pena...

Inquérito Policial

O Inquérito Policial, com a conformação mais próxima da que hoje é conhecida, surge no Brasil em 1871 ( Decreto nº 4.824 ). Sua definição aparece no art. 42 do Decreto 4.824, era atribuição da Polícia, mas as autoridades judiciárias poderiam nele interferir. Pouca coisa mudou, até hoje, na estrutura legal do Inquérito, que, basicamente, enfatiza a apuração do crime de homicídio.

Tortura

A palavra tortura já designa a antijuridicidade de seu significado. Tortura é o termo moderno para tormento. O tormento era um meio de prova, devidamente regulamentado nas Ordenações Filipinas . Curiosamente, a palavra tortura é um novo significado para um nome antigo, mas usando uma palavra antiga. É que no Fuero Juzgo , o que era contrário ao Direito era torto. E isto está mais correto do que o termo atual "antijurídico". É que direito significa reto e o que não é reto, é torto. Tortura, portanto, é o contrário de "direitura"; torturar é praticar o torto.

Macaco Velho

Macaco velho não põe a mão em cumbuca . Este ditado popular indica que os macacos aprendem com a experiência?

MP e Parecer

A nova lei do mandado de segurança (art. 12) deu a medida da importância ao parecer que alguns membros do Ministério Público elaboram nos processos: nenhuma. A lei define o parecer como mera opinião, que - se não for dada - faz com que o processo passe imediatamente à sentença, sem que isso cause qualquer nulidade. Quem fez o projeto de lei tentou inovar, mas ficou com medo de investir contra a tradição. Ficou a impressão de que o projeto de lei e a lei tiveram o intuito de enticar com o Ministério Público. O parecer é uma participação sem utilidade nos processos e fere a Constituição (art. 129, IX), que não deu atribuições de pareceristas aos membros do MP. Pelo contrário: a Carta de 1988 veda a consultoria e o parecer é ato típico de consultoria. Na posse do PGR, o Presidente Lula disse que havia riscos de se criar entraves à atuação do MP. Mas para que criar entraves, tirando ou restringindo a atuação do MP? Basta aumentar-lhe atribuições inofensivas, como é o chamado "custo...

Processo Eletrônico

Há tempos venho imaginando um logotipo para o processo eletrônico. Tenho dúvidas se deveria ser um português, com traje típico do Século XIV, manipulando um computador, ou uma vara branca com um monitor pendurado. Enfim, algo que simbolizasse toda a estrutura processual da idade média (nossa matriz portuguesa) e apenas instrumentalizada com máquinas modernas. É que o processo eletrônico, apresentado como a quintessência da modernidade, não modificou o modo de conduzir uma ação na Justiça. As audiências não chegaram na era da taquigrafia ou da estenografia. O Juiz dita e o Escrivão escreve, como nas Ordenações Filipinas ocorria com os Inquiridores e os Escrivães . Quando se vai além disso, as audiências são gravadas em áudio ou em vídeo e se gasta o dobro do tempo gasto quando eram ditadas: o tempo de realizar as audiências e o tempo de revê-las. O tempo para analisar e julgar um processo eletrônico e um processo de papel ou é o mesmo ou a operacionalização do processo eletrônico gasta ...

Queixar-se ao Bispo

A expressão "vá se queixar ao Bispo" já foi regra jurídica na Península Ibérica. No Fuero Juzgo ou Código Visigótico, uma legislação que vigorou na Espanha entre os anos 480 e 711, havia um dispositivo (Livro II, Título II, item XXVIII ) que permitia que, quando as pessoas achassem que o Juiz julgara torto, recorressem ao Bispo. Julgar torto significava julgar contra o Direito.

Epônimo de Gibraltar

Tariq ben Ziyad é o epônimo do Estreito de Gibraltar. Gibraltar é uma corruptela da expressão árabe Djebel el-Tariq , “A Montanha de Tariq”, até o ano de 711 chamada de “As colunas de Hércules". A invasão islâmica da Península Ibérica pelos muçulmanos, foi conduzida pelo governador Musa ben Nusayr, da província de Ifriquyia, ou Ifriqiyya, atual Tunísia, e por seu Lugar-Tenente Tariq. Os muçulmanos ficaram na Península Ibérica até 1492, quando os Reis Fernando e Isabel tomaram Granada. Até hoje há muitos vestígios dos muçulmanos na Península Ibérica, Al-Andalus. A capital de Al-Andalus era Córdoba, onde ainda está a grande mesquita.

Movimento de Manada

Fico impressionado com a ira antitabagista que atinge as pessoas. Aqui no Brasil, além disso, opiniões contrárias ao que está na moda não são aceitas. Quando estive nos EUA impressionou-me o fato de que, na frente de um protesto contra a Guerra do Iraque, havia um grupo se manifestando a favor da guerra. Aqui, isso seria considerado provocação e os dois grupos logo se engalfinhariam. Quando entrei com a ação que procurava coibir os exageros da propaganda anti-tabagista, impressionou-me o horda que investiu contra a idéia. O fumante me parece o Goldstein do momento. Volta e meia - como no 1984 de Orwell - desencadeiam-se os dois minutos de ódio contra cigarros e fumantes. Impressionou-me o momento em São Paulo, quando começa a vigorar a nova lei anti-fumo. Se houvesse a mesma fúria repressora contra bebidas alcoólicas, barulho, furtos, roubos, corrupção, sonegação de impostos, com certeza estaríamos mais felizes. Mas só os fumantes protagonizam os Dois Minutos de Ódio...

Diploma de Jornalista

O STF declarou inconstitucional a exigência de diploma para o exercício do jornalismo. O fundamento era que o art. 4º, V, do DL 972/69 não foi recepcionado pela Constituição , por ferir a liberdade de imprensa e o direito à livre manifestação do pensamento, este previsto no Pacto de San Jose da Costa Rica . Mas a exigência de exercício da Advocacia por Bacharéis em Direito (art. 8º, II da Lei nº 8.906/1994 ) também pode ser interpretada como desrespeito ao princípio da ampla defesa, previsto no art. 5º, LV da Constituição. Não falo em exercício da Magistratura ou do Ministério Público, pois aqueles julgam e estes acusam. Mas, se precisarem se defender, a proibição de Juízes e Membros do MP exercerem a Advocacia está na própria Constituição.

Estado e Violência

Os 3 elementos do Estado são Povo, Território e Governo. É interessante a relação que a origem destas 3 palavras tem com a violência. - Povo, por exemplo, vem do substantivo latino populus , que quer dizer "povo". Popularia são os lugares da plebe, popularis é popular ou compatriota, popularitas é esforço para agradar ao povo, populariter é ao modo do povo. Mas, curiosamente, o verbo populor significa devastar, assolar, destruir, aniquilar. Assim, populabilis é o que pode ser assolado; populabundus é assolador, devastador; populatio é assolação, devastação; populator é devassador, destruidor; populatrix é a que devasta. - Por que "território" e não "terreno"? Porque "território" tem origem na palavra latina territorium (e não na palavra terrenum ), estando relacionada, a palavra territorium , a territum , particípio passado do verbo terreo , que quer dizer "fazer tremer, aterrorizar, fazer fugir pelo terror, afugentar, repeli...

Suicídio do Rei

– Dentre os povos Yorubá, havia os do reino de Oyo. Se o rei cometia um crime, dizia o Oyo-mesis (o bahorum): “As nossas sessões de adivinhações revelaram-nos que o seu destino é mau e que o seu orun (o seu outro ser celeste) já não tolera que continue aqui na Terra. Pedimos-lhe, pois, que vá dormir”. O soberano devia envenenar-se logo a seguir. A narrativa consta do livro História da África Negra, de Joseph Ki-Zerbo. Como temos forte influência cultural da África, a insistência para que se peça licença ou renúncia (em vez da abertura de processos) pode ter aí sua origem.

Discussões Indiscutíveis

Há temas que eu não entendo como podem ser objeto de discussão. O do momento é o toque de recolher dos menores. Não sei o que leva uma pessoa a defender o direito de uma criança ou adolescente a varar madrugadas perambulando pelas ruas. O artigo 18 do ECA diz que é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor . Ora, mesmo que o art. 16, I do ECA diga que crianças e adolescentes podem ir, vir e permanecer nos logradouros públicos, à noite todos os gatos são pardos. O risco de uma criança ou adolescente ser vítima de atos desumanos, de violências, de terror, vexame ou constrangimento é muito maior na noite do que no dia; e, mesmo no dia, andar sozinho pela rua é um risco para uma criança ou adolescente. Não vi em Nova Iorque, Lisboa, Madri e Paris crianças e adolescentes andando sozinhas pelas ruas, nem de dia, nem de noite. Será que não há crianças e adolescentes por...

Escândalos Escandalosos

Na minha profissão é coisa cotidiana descobrir gente fazendo falcatrua. Nem sempre uma falcatrua dessa vira escândalo. As causas de não virar escândalo são inúmeras, que vão desde as “do bem” (falta de interesse do público, ser o escandaloso um desconhecido etc) até as “do mal” (o escandaloso é um bom anunciante dos órgãos de imprensa, é bem visto por quem poderia alimentar o escândalo etc). É curioso que, às vezes, gente de comportamento duvidoso, de há muito conhecida por tal comportamento, de repente vira escândalo. A pessoa sempre foi um escândalo, mas de repente seu escândalo fica escandaloso. O que leva um escandaloso de longa data virar um escândalo nacional?

Concurso

Passar em concurso requer estudo, disciplina, perseverança, escolha objetiva e muito pouco de sorte. Primeiro deve-se saber que concurso se quer e se se quer mesmo passar num e naquele concurso. Melhor é eleger um leque de concursos com um núcleo comum de disciplinas: Juiz Federal, Procurador da República, Procurador da Fazenda Nacional, Advogado da União e Delegado de Polícia Federal são concursos com um núcleo comum de matérias. Já Juiz de Direito, Promotor de Justiça e Delegado de Polícia Civil têm outro núcleo comum de matérias.

Concurso 1

Deve-se fazer mais de um concurso, especialmente porque muito raramente se é aprovado no primeiro. Há necessidade de ganhar uma certa experiência em concursos, do tipo procura de vagas, nível dos concorrentes (geralmente, num concurso de 10 mil candidatos, 500 são competitivos e os demais só fazem número), administração do tempo durante as provas e controle do nervosismo. Aliás, o nervosismo exagerado pode botar um concurso a perder.

Concurso 2

Mesmo que se faça uma boa escolha do grupo de concursos a serem prestados, mesmo que se aprenda a dominar o tempo e os nervos durante as provas, nada é mais fundamental do que o estudo e a disciplina para estudar. Sempre é bom lembrar que, enquanto se está fazendo festa, um outro concorrente está estudando. Não existe o tal livro mágico, que se lê e se passa no concurso desejado. Não há necessidade de uma obra muito profunda, mas ela precisa trazer todos os conceitos fundamentais. Se o membro da banca escreve livros, é indispensável ler seus livros, pois pode se tratar de alguém muito vaidoso e que queira que sua obra seja lida compulsoriamente. O tempo de estudo deve ser rigoroso: se foi reservada uma hora por dia para estudar, esta uma hora integralmente dedicada ao estudo. Um bom método é marcar a hora no cronômetro e o cronômetro ser interrompido para o lanche, para o banheiro, para o telefone etc. Terminou o lanche, reativa o cronômetro. Não há milagres nem sorte, só estudo e dedi...

Dilação ou dilatação?

Geralmente vejo as pessoas se referirem à prorrogação de prazo como dilação . Está certo que dilação é mais bonito do que dilatação . Mas, apesar do Aurélio dizer que dilação é sinônimo de dilatação , na verdade não é, apenas o uso consagrou a mancada. Em direito, a palavra dilação é sinônimo de prazo: dilação probatória, dilação peremptória etc, conforme já constava das Ordenações Filipinas. Assim, para torrar a paciência de quem pede dilação de prazo e para ver se as pessoas se emendam, digo sempre que concordo com a dilatação da dilação .

Tramitando ou Pendente?

Aqui no Brasil se diz que um processo está tramitando . Tenho visto cartas rogatórias de outros países, dentre os quais a Alemanha, em que se fala que o processo está pendente . Passei a achar que o termo " pendente " produz um efeito psicológico que faz o processo andar mais depressa; enquanto que " tramitando " faz o processo andar devagar. Vejamos: a palavra tramitando dá a impressão que a finalidade do processo é tramitar: tramita, tramita, tramita e nunca acaba; já a palavra pendente dá a idéia de que vai cair a qualquer momento, ou seja, logo vai ser resolvido. Daí porque passei a me referir ao andamento dos processos como "pendente" e não "tramitando".