sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ócio

Em 1967 fui estudar no Colégio Salesiano Itajaí. Vinha do Grupo Escolar Vitor Meirelles, para onde fui forçado a imigrar, vindo do Colégio São José, então Escola Normal São José. Emigrei do São José em face de uma tolice que surgiu na época: as escolas deixariam de ser mistas, para ser frequentadas só por meninos ou só por meninas. Então deixei o Colégio São José, que ficou só para meninas, em 1964 e, em 1965, fui para o Grupo Escolar Victor Meirelles, que era misto. Pouco tempo mais tarde retomou-se o curso da evolução, e tanto o Colégio Salesiano (só meninos) quanto o São José (só meninas) voltaram a ser mistos. O Colégio Salesiano era dirigido por padres e o São José por freiras. Certamente a guinada moralista se deveu a mais uma das tolices dos golpistas de 31.3.64, pois a separação de sexos ocorreu exatamente em 1964. Mas, voltando à narrativa, migrei do Victor Meirelles em 1967 e fui para o Salesiano.
Na minha cabeça tive uma subida de posição na vida. De uma forma ou de outra, estava indo para um "colégio de homens" e saindo de uma "escola de crianças".
Pois bem, o prédio do Colégio era portentoso para a Itajaí da década de 60, uma cidade com cerca de 50 mil habitantes. As salas de aula, recentemente construídas, eram ligadas por um corredor, que do lado oposto às salas, servia também de sacada, dando para o pátio, onde havia quadras de vôlei, basquete e futebol de areia. O piso do corredor era vermelho e a sala em que tínhamos a aula do 4º ano primário (piso de tacos de madeira) ficava numa esquina do corredor, sendo a única sala com porta de vidro, encaixada numa parede também envidraçada. Era a sala com a entrada mais bonita, que talvez tenha sido, originalmente, destinada para outra finalidade, mas com o aumento da quantidade de matrículas, virou sala de aula.
Ao lado da minha sala de aulas, estava a biblioteca. É sobre esta porta que quero falar, mais exatamente sobre a lembrança do que nela havia. Preso na porta havia um pequeno quadro de cartolina, em que estava escrita em letras vermelhas a seguinte frase de ROUSSEAU:
Rico ou pobre, poderoso ou fraco, o ocioso é um patife.
Hoje, pelo Google, vi que a frase está no livro "Emílio ou Da Educação". Para ler esta frase no livro em que está, clique aqui e leia a versão em espanhol (procure por "bridón");  e clique aqui  para ler todo o texto em português (procure "patife", após dar "ctrl F").
A frase nunca me saiu da cabeça, desde que eu a li, há quase 44 anos (que se completam em março). Depois fui lendo outras obras que abordavam o ócio e o trabalho, especialmente "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" e fui aumentando minha má-vontade e antipatia para com os ociosos.
A foto acima é o que considero, depois da rede de dormir, um dos maiores símbolos do ócio entre nós: a sombrinha de praia (claro que em outros países também se vai à praia; mas lá as praias não são tão lindas e agradáveis como as nossas).
No mais, creio que foi Helmuth Kohl que, ao passar por uma praia no Rio de Janeiro, em visita oficial ao Brasil, disse alguma coisa do tipo "Quanto estas pessoas poderiam estar fazendo por seu país se não ficassem horas a fio estiradas na praia".
A frase foi esquecida ou nunca foi dita, não passando de mera imaginação minha, pois não a achei em exaustiva procura no Google (se alguém achar, que mo diga).
Se dita, certamente foi esquecida por que a grande desculpa da malandragem é repetir à exaustão a frase atribuída a De Gaulle (O Brasil não é um país sério). Afinal, se o país não é sério, para que trabalhar? Melhor é ficar na praia.
Felizmente, de uns tempos para cá, se começou e pensar mais seriamente no trabalho e o país foi para o primeiro mundo, ou está quase lá.

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