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Religião e Estado 44 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

  África Central e Oriental 23 - Chintomba era o Ganga Supremo do Ducado de Sundi . Ele habitava as Montanhas de Nganda . Seus cabelos eram compridos e entrelaçados com objetos de culto. Seus seguidores só podiam falar-lhe deitados no chão e olhar seu rosto se autorizados. Ao sair da gruta em que se abrigava, era precedido por carregadores que levavam uma estátua de madeira, colocada como um cadáver num caixão.  Um outro ganga se chamava Ngoscì, que era obrigado a viver com onze esposas, as quais correspondiam a muitas divindades. A fumaça da palha queimada fazia as vezes de insenso, que servia para enegrecer as estátuas das divindades, de modo a se assemelhar à pele dos fiéis. Se alguém desejasse se vingar de alguém, Ngoscì cortava os cabelos do suplicante e os atirava ao fogo, para que a divindade fizesse justiça ao ofensor. Havia, ainda, o ganga Nipindì, que governava os Elementos (água, terra, fogo e ar?). Ele atuava em montes de terras cobertos de galhos, nos quais eram p...

Religião e Estado 43 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

  África Central e Oriental 22 - Dentre os gangas descritos na obra de CAVAZZI, em segundo grau de importância, após o Chitòmi , estava o ganga Ngombo . Muitas vezes ele andava só com as mãos, de pernas para o ar. O Ngombo se dizia versado em Cutamanga, que era o nome da arte divinatória no idioma nativo. Além disso, o Ngombo curava enfermidades. Ele usava, para curar, uns sacos contendo badulaques. CAVAZZI narra que os missionários católicos , ao jogarem no fogo estes sacos contendo badulaques, sentiram um fedor intolerável, além de muita dor de cabeça e cólicas intestinais. CAVAZZI atribui tais efeitos ao fato de, antes de jogarem os sacos no fogo, não terem invocado a ajuda de Deus e dos Santos. Diz ainda que, se quem manipulasse tais sacos não o fizesse com cautela e precauções, ficaria com “membros completamente estúpidos”.  O Ngombo, enquanto preparava suas misturas, ficava loquaz e falava em diferentes línguas, calando-se na frente de “algum Ministro Evangélico”. Caso o...

Religião e Estado 43 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

  África Central e Oriental 22 - Prosseguindo no excerto do texto de Daniel PRECIOSO, a respeito da obra Descrição histórica dos três reinos: Congo, Matamba e Angola , de Giovanni CAVAZZI ( na edição portuguesa , o nome de CAVAZZI foi traduzido, ficando João António Cavazzi de Montecúccolo ). Ver também sobre a obra de CAVAZZI, A construção do discurso de Giovanni Antonio Cavazzi sobre a África do século XVII , de Ingrid Silva de Oliveira .  O texto de Daniel PRECIOSO se intitula Religiões centro-africanas pela ótica de um capuchinho : rituais, objetos sagrados e sacerdotes na Istorica Descrizione (1687) , de Giovanni Cavazzi , cujo original está na Revista de fontes , v. 12, n. 22 - Guarulhos, junho de 2025 - ISSN 2359-2648, pp. 134-164. Após uma análise que PRECIOSO faz do livro de CAVAZZI, há uma transcrição da obra a partir da p. 142. É a segunda parte do excerto desta transcrição que farei a seguir:  Em segundo grau de importância, após o Chitòmi, estava o ganga ...

Religião e Estado 42 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

  África Central e Oriental 21 - Além da obra de CADORNEGA , outra há que descreve rituais no Congo e em Angola no Século XVII : trata-se da obra Descrição histórica dos três reinos: Congo, Matamba e Angola , de Giovanni CAVAZZI . Na edição portuguesa, o nome de CAVAZZI foi traduzido, ficando João António Cavazzi de Montecúccolo. A tradução do italiano para o português e as anotações foram feitas  por Graciano Maria de Leguzzano. A publicação ocorreu em Lisboa, pela  Junta de Investigações do Ultramar, em 1965. Foram 2 volumes, com ilustrações: o 1.º volume com 428 páginas e o 2.º volume com 492 páginas. Esta edição está esgotadíssima e eu nunca tive notícia de uma outra edição em português. Há alguns trabalhos a respeito desta obra, como A construção do discurso de Giovanni Antonio Cavazzi sobre a África do século XVII , de Ingrid Silva de Oliveira .  Para esta postagem, irei utilizar um excelente texto de Daniel Precioso : Religiões centro-africanas pela ótica de...

Religião e Estado 41 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

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  África 20 - Nesta postagem CADORNEGA narra um episódio em que um ganga se transforma em leão para caçar alimentos destinados a ele e a um grupo de pessoas. Traziam uns pombeiros ou mercantes escravos dos portugueses do quilombo de Casangi um negro prezo em libambo (Do kimbundu lubambu ; aportuguesamento com o abrandamento do u em i : corrente de ferro); e achando muita caça pelo caminho, vindo  toda a cáfila ou companhia faltos de comer, rogou muito ao pombeiro que o trazia, que o soltasse, que ele prometia de não fugir, que queria matar daquela caça para que todos comessem; feita a soltura com o pacto que tinha, e com suas ervas se transformou em um leão e matou quanta caça quis, com que tiveram todos os da quadrilha bem que comer. (p. 328/901pdf) Com seus dentes fazem também estes gentios muitas maldades; e não há feiticeiro que não tenha com os seus badulaques (miudezas para os feitiços), dente de leão para fazerem suas feitiçarias ; os seus bigodes se têm por fi...

Religião e Estado 40 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

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  África 19 -  Aqui veremos as ordálias n’Angola seiscentista .  Ordálias eram as provas divinas, ou seja, aquelas em que os deuses, ou Deus, conforme a crença, diria se o acusado era inocente ou culpado. Delas, chegou-nos a expressão “ botar a mão no fogo ”: ao se falar se uma pessoa é honesta ou desonesta, alguém assegura sua honestidade, pois, por ela, “colocaria a mão no fogo”, o que significa que, se a pessoa fosse honesta, a mão do que declara não queimaria, mesmo colocada no fogo; se a pessoa fosse desonesta, a mão do declarante queimaria. Não vi expressa menção às ordálias/ordália no Corpus Iuris Civilis , nem na Lei das Sete Partidas , mas, se o Concílio de Latrão de 1215 as proibiu , no item 18 ,  certamente algum dia existiram. Note-se que, junto com a proibição de ordálias, estava a proibição de duelos, que não deixam de ser a colocação de uma disputa nas mãos da divindade.  No Corpus Iuris Civilis ( Cuerpo del Derecho Civil Romano - edição facsimi...

Religião e Estado 39 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

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  África 18 -  Neste trecho do livro de CADORNEGA, ele faz uma narrativa que talvez seja uma das primeiras a tratar de imaginárias metamorfoses de humanos para macacos ou vice-versa: de relações entre macacos e humanos teria nascido um ser híbrido. Esta narrativa frequentou o imaginário das pessoas até meados do século XX. Havia atrações circenses e eu mesmo, nos anos 60, vi um ônibus transformado em uma diminuta sala de espetáculos, com uma jaula no lugar de palco, na qual uma mulher se transformava em macaca. Um grande e saudoso amigo de infância, me contou ter visto este espetáculo e imitava os pulos da mulher-macaca. Nunca soube se ele viu o espetáculo ou o imaginou. Um episódio envolvendo estas relações íntimas entre macacos e humanos foi  narrado no livro O Macho Demoníaco , p 171 (Richard WRANGHAM & Dale PETERSON, 1998).  Vamos à narrativa de CADORNEGA : Em os caminhos de reino de Congo e seus pumbos, há monos ou bugios (O Autor emprega estes  ...