O Fuero Juzgo
Nas postagens anteriores falei sobre Direito Canônico e Corpus Iuris Civilis.
A primeira codificação - ou pelo menos a mais famosa - da Península Ibérica foi o Fuero Juzgo. Ela vigorou por toda a Península Ibérica e, pois, no território que, mais tarde, veio a ser Portugal.
O Fuero Juzgo era contemporâneo aos dias em que foi promulgado o Corpus Iuris Civils e vigorou na Península Ibérica de 480 a 711. Todavia, a forma com que tratava os assuntos religiosos revela mais subordinação do que ordenação, estando neste ponto a diferença entre o Fuero Juzgo e o Corpus Iuris Civilis. Provavelmente a elaboração do Fuero Juzgo é quase contemporânea ao Corpus, mas este último foi uma compilação de leis mais antigas. Os bizantinos se relacionavam com os toledanos, mas era uma relação problemática, como se pode ver no texto de Cynthia Maria VALENTE (AS RELAÇÕES POLÍTICAS ENTRE O IMPÉRIO BIZANTINO E O REINO VISIGODO DE TOLEDO DURANTE O SÉCULO VI - acesso em 29/5/2026).
O Fuero Jugo se inicia (Primeiro Título, p. I - Fuero Juzgo ó Livro de Los Jueces - edição facsimiliar da Ed. Ibarra, Madrid, 1815, editado por Lex Nova, Valladolid, 1990) mencionando que foi feito por rei e bispos (isto na versão surgida no Quarto Concílio de Toledo, no ano de 633). Esta informação refere-se a parte do Código, pois também é uma coletânea de leis anteriores, com inserções de normas oriundas do referido concílio. Mas há normas posteriores ao Concílio, como aquelas dos Reis Flavio Recisiundo, Flavio Rescindo, Bamba, Flavio Ervigio. As normas de Reccaredo são do tempo da conversão ao catolicismo.
A primeira menção ao clero ocorre quando é determinado que os testamentos deviam ser apresentados ao bispo (Livro II, Título V - ob. cit., p. 41); mais adiante é penalizada a fornicação dos clérigos (Livro III, Título XVIII - ob. cit., p. 59); há normatização sobre aqueles que abandonam os monastérios (Livro III, Título V - p. 61 ob. cit.); há norma sobre a herança dos clérigos, monges e monjas (Livro IV, Tít. II - p. 69 ob. cit.).
A disciplina dos bens da igreja é objeto de todo um título (Livro V, Título I, pp. 78-82, ob. cit.), em que se trata das coisas da igreja, nulidade da venda de bens da igreja por bispos, bens tidos pelos que servem à igreja e servos da igreja (servo era a denominação de escravo, pois a escravização em massa de eslavos só ocorreria no ano 800).
Os encantadores (os que fazem pedras cair nas vinhas, que falam com os diabos, que fazem sacrifícios aos diabos) eram punidos com 200 açoites e assinalados na fronte; também eram punidos com 200 açoites os que tomassem conselho com estes encantadores (Livro VI, Título II - pp. 105-106, ob. cit.).
Era proibido tirar alguém da igreja e se um devedor lá entrasse, isso não quitaria sua dívida (Livro IX, Título II - pb. cit., pp. 162-163); este homizio na igreja também era regulado no Livro II do Código Filipino/Ordenações Filipinas.
No Livro XIL, Título I, (ob. cit., p. 175) há interessante norma do Rei Reccaredo, que diz o seguinte:
III. Do poder que tem os bispos de mandar, e de admoestar aos alcaides quando julgam algum torto.
(...) E se algum alcaide, ou algum defensor ou outro de qual dignidade qualquer, que tenha poder de julgar, der algum juízo torto em alguma coisa, então o bispo daquela província deve chamar o alcaide da terra, onde ocorreu aquele torto, e o que é acusado daquele torto, com os sacerdotes, e com os homens bons leigos, e julgar ante o alcaide que julgou torto, e ante os outros todos aquela demanda segundo o direito.
(Tradução livre do espanhol)
Esta norma, provavelmente, chegou até aos nossos dias, com a expressão “Vá se queixar ao Bispo”.
Mais adiante, no Fuero Juzgo (Livro XII, Título II - ob. cit., p. 177), há uma exortação (norma do Rei Rescindo) ao respeito aos sacramentos da Santa Igreja:
E defendemos que nenhum homem de nenhuma gente, seja de nosso reino ou estranho, nem de outra terra não ouse disputar publicamente, nem secretamente, que o faça por má intenção contra a santa fé dos cristãos, a fé que é uma só verdadeira, nem seja ousado de a contrariar, nem nenhum homem não ouse depreciar os evangelhos, nem os sacramentos da santa igreja, nem nenhum homem não deprecie os estabelecimentos do apóstolo; nenhum homem não seja ousado de quebrar os mandamentos que fizeram os santos padres antigamente (...).
(Tradução livre do espanhol)
O Fuero Juzgo termina com um título inteiro (III, Livro XII, ob. cit. pp. 186-203) sobre as descrenças dos judeus e regras a respeito da convivência destes com os cristãos.
O Fuero Juzgo é denominado “Constituições” (como é mencionado, por exemplo, no Livro XII, Título III, item XXIV - ob. cit. p. 202). O título termina determinando aos bispos que descem traslado ao livro XII “que foi feito para desfazer as descrenças dos judeus…” (ob. cit., p. 203).
















