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Religião e Estado 43 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

  África Central e Oriental 22 - Dentre os gangas descritos na obra de CAVAZZI, em segundo grau de importância, após o Chitòmi , estava o ganga Ngombo . Muitas vezes ele andava só com as mãos, de pernas para o ar. O Ngombo se dizia versado em Cutamanga, que era o nome da arte divinatória no idioma nativo. Além disso, o Ngombo curava enfermidades. Ele usava, para curar, uns sacos contendo badulaques. CAVAZZI narra que os missionários católicos , ao jogarem no fogo estes sacos contendo badulaques, sentiram um fedor intolerável, além de muita dor de cabeça e cólicas intestinais. CAVAZZI atribui tais efeitos ao fato de, antes de jogarem os sacos no fogo, não terem invocado a ajuda de Deus e dos Santos. Diz ainda que, se quem manipulasse tais sacos não o fizesse com cautela e precauções, ficaria com “membros completamente estúpidos”.  O Ngombo, enquanto preparava suas misturas, ficava loquaz e falava em diferentes línguas, calando-se na frente de “algum Ministro Evangélico”. Caso o...

Religião e Estado 43 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

  África Central e Oriental 22 - Prosseguindo no excerto do texto de Daniel PRECIOSO, a respeito da obra Descrição histórica dos três reinos: Congo, Matamba e Angola , de Giovanni CAVAZZI ( na edição portuguesa , o nome de CAVAZZI foi traduzido, ficando João António Cavazzi de Montecúccolo ). Ver também sobre a obra de CAVAZZI, A construção do discurso de Giovanni Antonio Cavazzi sobre a África do século XVII , de Ingrid Silva de Oliveira .  O texto de Daniel PRECIOSO se intitula Religiões centro-africanas pela ótica de um capuchinho : rituais, objetos sagrados e sacerdotes na Istorica Descrizione (1687) , de Giovanni Cavazzi , cujo original está na Revista de fontes , v. 12, n. 22 - Guarulhos, junho de 2025 - ISSN 2359-2648, pp. 134-164. Após uma análise que PRECIOSO faz do livro de CAVAZZI, há uma transcrição da obra a partir da p. 142. É a segunda parte do excerto desta transcrição que farei a seguir:  Em segundo grau de importância, após o Chitòmi, estava o ganga ...

Religião e Estado 42 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

  África Central e Oriental 21 - Além da obra de CADORNEGA , outra há que descreve rituais no Congo e em Angola no Século XVII : trata-se da obra Descrição histórica dos três reinos: Congo, Matamba e Angola , de Giovanni CAVAZZI . Na edição portuguesa, o nome de CAVAZZI foi traduzido, ficando João António Cavazzi de Montecúccolo. A tradução do italiano para o português e as anotações foram feitas  por Graciano Maria de Leguzzano. A publicação ocorreu em Lisboa, pela  Junta de Investigações do Ultramar, em 1965. Foram 2 volumes, com ilustrações: o 1.º volume com 428 páginas e o 2.º volume com 492 páginas. Esta edição está esgotadíssima e eu nunca tive notícia de uma outra edição em português. Há alguns trabalhos a respeito desta obra, como A construção do discurso de Giovanni Antonio Cavazzi sobre a África do século XVII , de Ingrid Silva de Oliveira .  Para esta postagem, irei utilizar um excelente texto de Daniel Precioso : Religiões centro-africanas pela ótica de...

Religião e Estado 41 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

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  África 20 - Nesta postagem CADORNEGA narra um episódio em que um ganga se transforma em leão para caçar alimentos destinados a ele e a um grupo de pessoas. Traziam uns pombeiros ou mercantes escravos dos portugueses do quilombo de Casangi um negro prezo em libambo (Do kimbundu lubambu ; aportuguesamento com o abrandamento do u em i : corrente de ferro); e achando muita caça pelo caminho, vindo  toda a cáfila ou companhia faltos de comer, rogou muito ao pombeiro que o trazia, que o soltasse, que ele prometia de não fugir, que queria matar daquela caça para que todos comessem; feita a soltura com o pacto que tinha, e com suas ervas se transformou em um leão e matou quanta caça quis, com que tiveram todos os da quadrilha bem que comer. (p. 328/901pdf) Com seus dentes fazem também estes gentios muitas maldades; e não há feiticeiro que não tenha com os seus badulaques (miudezas para os feitiços), dente de leão para fazerem suas feitiçarias ; os seus bigodes se têm por fi...

Religião e Estado 40 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

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  África 19 -  Aqui veremos as ordálias n’Angola seiscentista .  Ordálias eram as provas divinas, ou seja, aquelas em que os deuses, ou Deus, conforme a crença, diria se o acusado era inocente ou culpado. Delas, chegou-nos a expressão “ botar a mão no fogo ”: ao se falar se uma pessoa é honesta ou desonesta, alguém assegura sua honestidade, pois, por ela, “colocaria a mão no fogo”, o que significa que, se a pessoa fosse honesta, a mão do que declara não queimaria, mesmo colocada no fogo; se a pessoa fosse desonesta, a mão do declarante queimaria. Não vi expressa menção às ordálias/ordália no Corpus Iuris Civilis , nem na Lei das Sete Partidas , mas, se o Concílio de Latrão de 1215 as proibiu , no item 18 ,  certamente algum dia existiram. Note-se que, junto com a proibição de ordálias, estava a proibição de duelos, que não deixam de ser a colocação de uma disputa nas mãos da divindade.  No Corpus Iuris Civilis ( Cuerpo del Derecho Civil Romano - edição facsimi...

Religião e Estado 39 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

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  África 18 -  Neste trecho do livro de CADORNEGA, ele faz uma narrativa que talvez seja uma das primeiras a tratar de imaginárias metamorfoses de humanos para macacos ou vice-versa: de relações entre macacos e humanos teria nascido um ser híbrido. Esta narrativa frequentou o imaginário das pessoas até meados do século XX. Havia atrações circenses e eu mesmo, nos anos 60, vi um ônibus transformado em uma diminuta sala de espetáculos, com uma jaula no lugar de palco, na qual uma mulher se transformava em macaca. Um grande e saudoso amigo de infância, me contou ter visto este espetáculo e imitava os pulos da mulher-macaca. Nunca soube se ele viu o espetáculo ou o imaginou. Um episódio envolvendo estas relações íntimas entre macacos e humanos foi  narrado no livro O Macho Demoníaco , p 171 (Richard WRANGHAM & Dale PETERSON, 1998).  Vamos à narrativa de CADORNEGA : Em os caminhos de reino de Congo e seus pumbos, há monos ou bugios (O Autor emprega estes  ...

Religião e Estado 38 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

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  África 17 -  CADORNEGA narra uma história fantástica, na qual um feiticeiro se apaixona por uma mulher que é escrava de outro homem. Para se casar com esta mulher, o feiticeiro se transforma em crocodilo (que CADORNEGA chama de lagarto) e arranca a mulher da canoa em que estava com seu dono, para depois desposá-la. Um mercador passava pelo rio Dande , indo para o pumbo de Ocanga, levava consigo sua escravaria, dentre os quais uma escrava. (...) afeiçoou-se dela um negro, que ali morava, dos principais daquela povoação e passagem, e vendo que era impossível satisfazer seu desejo em havê-la, por ser o governo daquele homem, valeu-se de suas habilidades, que devia ser mestre em artes, mas diabólicas, o qual transformando-se em um feroz lagarto, indo o senhor da preta passando aquele rio em uma canoa com ela dentro, veio de improviso subindo a embarcação, e aferrou da sua afeiçoada, em que havia posto seu desejo e amor, e a levou com sigo ao rio. O homem ficou espantado de t...