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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ócio

Em 1967 fui estudar no Colégio Salesiano Itajaí. Vinha do Grupo Escolar Vitor Meirelles, para onde fui forçado a imigrar, vindo do Colégio São José, então Escola Normal São José. Emigrei do São José em face de uma tolice que surgiu na época: as escolas deixariam de ser mistas, para ser frequentadas só por meninos ou só por meninas. Então deixei o Colégio São José, que ficou só para meninas, em 1964 e, em 1965, fui para o Grupo Escolar Victor Meirelles, que era misto. Pouco tempo mais tarde retomou-se o curso da evolução, e tanto o Colégio Salesiano (só meninos) quanto o São José (só meninas) voltaram a ser mistos. O Colégio Salesiano era dirigido por padres e o São José por freiras. Certamente a guinada moralista se deveu a mais uma das tolices dos golpistas de 31.3.64, pois a separação de sexos ocorreu exatamente em 1964. Mas, voltando à narrativa, migrei do Victor Meirelles em 1967 e fui para o Salesiano.
Na minha cabeça tive uma subida de posição na vida. De uma forma ou de outra, estava indo para um "colégio de homens" e saindo de uma "escola de crianças".
Pois bem, o prédio do Colégio era portentoso para a Itajaí da década de 60, uma cidade com cerca de 50 mil habitantes. As salas de aula, recentemente construídas, eram ligadas por um corredor, que do lado oposto às salas, servia também de sacada, dando para o pátio, onde havia quadras de vôlei, basquete e futebol de areia. O piso do corredor era vermelho e a sala em que tínhamos a aula do 4º ano primário (piso de tacos de madeira) ficava numa esquina do corredor, sendo a única sala com porta de vidro, encaixada numa parede também envidraçada. Era a sala com a entrada mais bonita, que talvez tenha sido, originalmente, destinada para outra finalidade, mas com o aumento da quantidade de matrículas, virou sala de aula.
Ao lado da minha sala de aulas, estava a biblioteca. É sobre esta porta que quero falar, mais exatamente sobre a lembrança do que nela havia. Preso na porta havia um pequeno quadro de cartolina, em que estava escrita em letras vermelhas a seguinte frase de ROUSSEAU:
Rico ou pobre, poderoso ou fraco, o ocioso é um patife.
Hoje, pelo Google, vi que a frase está no livro "Emílio ou Da Educação". Para ler esta frase no livro em que está, clique aqui e leia a versão em espanhol (procure por "bridón");  e clique aqui  para ler todo o texto em português (procure "patife", após dar "ctrl F").
A frase nunca me saiu da cabeça, desde que eu a li, há quase 44 anos (que se completam em março). Depois fui lendo outras obras que abordavam o ócio e o trabalho, especialmente "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" e fui aumentando minha má-vontade e antipatia para com os ociosos.
A foto acima é o que considero, depois da rede de dormir, um dos maiores símbolos do ócio entre nós: a sombrinha de praia (claro que em outros países também se vai à praia; mas lá as praias não são tão lindas e agradáveis como as nossas).
No mais, creio que foi Helmuth Kohl que, ao passar por uma praia no Rio de Janeiro, em visita oficial ao Brasil, disse alguma coisa do tipo "Quanto estas pessoas poderiam estar fazendo por seu país se não ficassem horas a fio estiradas na praia".
A frase foi esquecida ou nunca foi dita, não passando de mera imaginação minha, pois não a achei em exaustiva procura no Google (se alguém achar, que mo diga).
Se dita, certamente foi esquecida por que a grande desculpa da malandragem é repetir à exaustão a frase atribuída a De Gaulle (O Brasil não é um país sério). Afinal, se o país não é sério, para que trabalhar? Melhor é ficar na praia.
Felizmente, de uns tempos para cá, se começou e pensar mais seriamente no trabalho e o país foi para o primeiro mundo, ou está quase lá.

sábado, 1 de maio de 2010

Dia do Trabalho 4

Temos, entre nós, alguns hábitos que hierarquizam o trabalho, dividindo-o em trabalhos grandiosos ou humildes. No Brasil, evitamos a palavra empregado, preferindo “funcionário”, “colaborador”, “associado” e outras que evitem lembrar a situação de alguém mandando e alguém obedecendo. No serviço público, se faz referência a “ordens” sob o nome de “pedidos”: “O Dr. Fulano pediu para eu para fazer tal coisa”, quando, na verdade, o Dr. Fulano tinha mandado o Beltrano fazer tal coisa. Em Portugal, a palavra “moço” é pejorativa. É que um dos sentidos da palavra “moço”, no Dicionário Aurélio, é “criado, serviçal.” Como para nós, brasileiros, a palavra "moço" é neutra, passamos por algumas situações embaraçosas entre os lusitanos quando, por força do hábito, chamamos - lá em Portugal - alguém, usando a palavra "moço".
Mas temos raízes históricas para tais hábitos. No século XVIII havia trabalhos considerados vis. Uma menção a alguns destes trabalhos está nas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707. Cavar, roçar e cortar cana, por exemplo, estavam entre os trabalhos “baixos” ou “vis” (parágrafo 478). Mas havia também trabalhos que eram considerados “tão perigosos, que dificultosamente se podem exercitar sem pecado”, como era o caso de “todo gênero de trato, mercância e negociação”, incluídas aí as profissões de tratante, rendeiro e mercador (parágrafo 482).
Atualmente, nossa Constituição adota o princípio da valorização do trabalho humano (artigo 170). Mas esta valorização do trabalho deve andar junto com o princípio da igualdade (art. 5º), de modo que não haja trabalhos considerados superiores ou inferiores. Todo trabalho honesto deve ser considerado digno de respeito e consideração. Não se pode, portanto, ter uma hierarquia social do trabalho, como se houvesse pessoas que fossem socialmente superiores e outras inferiores, por causa do trabalho que exercem.
Não pode haver trabalho honesto que seja motivo de vergonha, ou motivo de humilhação. Ninguém tem o direito de tratar o outro arrogantemente porque, num dado momento este outro está servindo (arrogante é quem não roga, não pede). O que é servido, o é por uma circunstância momentânea, que não lhe dá o direito de aviltar quem serve. Esta é a idéia de dignidade do trabalho, vivenciada num regime de igualdade social e política. E aqui se usa a palavra "vivenciada", pois a igualdade não pode se resumir um desejo, um princípio, mas deve ser uma maneira de ser, de se comportar em relação ao todo social.
Vivemos numa sociedade em que a maioria das pessoas acha que é tratada desigualmente perante a lei (em pesquisa que realizei em Itajaí, em 1986, 90% das pessoas pensavam assim). Mas não é só perante a lei que as pessoas são tratadas com desigualdade: elas tratam os outros com desigualdade, praticando a filosofia do ciclista, pois pisam em quem está embaixo e se curvam para quem está em cima.
Relatos que ouvi de pessoas que se disseram maltratadas no exterior, vieram daqueles que, aqui, tratavam mal os que os serviam profissionalmente. Certamente trataram com rispidez e arrogância vendedores, garçons, guias turísticos e outros prestadores de serviço, como se estes fossem seus escravos. Levaram o troco. Muito provavelmente nunca (nem aqui, nem lá) praticaram a igualdade.
Viver a igualdade no trabalho é entender que, aquele que me serve, é igual a mim e que eu, em alguma outra ocasião, poderei estar a servi-lo. Ninguém fica menor por servir, nem maior por ser servido.


sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dia do Trabalho 3

O nosso Código Penal prevê alguns comportamentos como danosos ao trabalho: o art. 203 dá como crime a frustração, mediante fraude ou violência, de direito assegurado pela legislação do trabalho. O art. 297, parágrafos 3º e 4º considera crime a falta de registro de empregado e práticas assemelhadas e o 337-A pune a falta de recolhimento ao INSS das contribuições sociais descontadas dos empregados.
Tais crimes existem, porque são comuns tais práticas. Já denunciei empresários por todos estes crimes. A dificuldade é que, volta e meia, se gasta tempo discutindo a competência da Justiça Federal para processar tais crimes.
Mas, se hoje temos a fraude a direitos trabalhistas, no tempo da escravidão, tivemos a fraude a direitos dos escravos.
Das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, de 1707, constava o seguinte:
377...mandamos a todos os nossos súbditos que se abstenham nos Domingos e dias Santos de guarda de todo o trabalho, obras servis e mecânicas (...).
378. E porque o mais notável abuso que pode haver nesta matéria é a publicidade com que os Senhores de Engenho mandam lançar a moer aos Domingos e dias Santos, mandamos a todos os nossos súditos, de qualquer qualidade que sejam, que se abstenham de qualquer obra servil, por si ou por outrem, guardando inteiramente o preceito da Lei de Deus, que proíbe trabalhar nos tais dias, o que se entende da meia-noite do sábado até a outra meia noite do Domingo e, do mesmo modo nos dias Santos. E suposto que, havendo alguma necessidade precisa, como oferecer-se alguma cana queimada, ou em tal estado, que provavelmente se perderia com a dilação, ou outra semelhante necessidade, se permita em tal caso trabalhar (...).
379. Não é menos para estranhar o desumano e cruel abuso e corruptela muito prejudicial ao serviço de Deus, e bem das almas, que em muitos senhores de escravos se tem introduzido: porque aproveitando-se toda a semana do serviço dos miseráveis escravos, sem lhes darem coisa alguma para seu sustento, nem vestido com que se cubram, lhes satisfazem esta dívida, fundada em direito natural, com lhe deixarem livres os Domingos e dias Santos, para que nele ganhem o sustento e vestido necessário. Donde nasce que os miseráveis servos não ouvem Missa, nem guardam o preceito da Lei de Deus, que proíbe trabalhar nos tais dias.
380 As mesmas penas haverão (pela primeira vez em dez tostões, pela segunda em dois mil réis e pela terceira em quatro mil réis aplicados para a fabrica do corpo da Igreja); e se procederá do mesmo modo contra os Lavradores de canas, mandiocas e tabacos que consentirem que seus negros e servos trabalhem nos Domingos e dias Santos publicamente, fazendo roças para si, ou para outrem, pescando, ou carregando, ou descarregando barcas, ou qualquer outra obra de serviço proibido nos tais dias, salvo havendo urgente necessidade (...).

Como se viu, o hábito de transgredir direitos trabalhistas não é de hoje. Mesmo quando havia escravidão, os poucos direitos que os escravos tinham, eram desrespeitados por alguns senhores.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Dia do Trabalho 2

Em Max WEBER (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Trad. M. Irene de Q. F. Szmrecsányi e Tamás J.M.K. Szmrecsányi, Livraria Pioneira Editora, SP., 4 ed., 1985, pp. 128-129) se vê que, para a religião protestante, o trabalho é um meio excelente, quando não único, de atingir a certeza da graça. E, para calvinistas e batistas, o trabalho e a industriosidade são um dever para com Deus.

Na Encíclica Laborem exercens, de 1981, o Papa João Paulo II, em vários momentos, vê o trabalho como forma do homem de ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Mesmo reconhecendo que o trabalho é um bem e que, pelo trabalho, o homem se assemelha a Deus na obra da Criação, ainda assim, o Papa João Paulo II associava o trabalho à fadiga. E, num trecho da Encíclica Laborem exercens lembra que o Livro do Gênesis contrapõe à benção original do trabalho, a "maldição" que o "pecado" trouxe consigo: "Maldita seja a terra por tua causa! Com trabalho penoso tirarás dela o alimento todos os dias da tua vida". (...) "Comerás o pão com o suor da fronte, até que voltes à terra da qual foste tirado...".

Estas duas concepções do trabalho podem ser associadas a modos de vida de dois povos: os estadunidenses, majoritariamente protestantes, e os brasileiros, majoritariamente católicos. E uma forma de contemplar os modos de vida de cada um destes povos é o pano de fundo dos enredos dos filmes (nos EUA) e das novelas (Brasil). Nos filmes estadunidenses, em geral, a trama se desenvolve em torno do trabalho. Ou, se o trabalho não é o centro do enredo, pelo menos as pessoas aparecem trabalhando e têm uma profissão. Nas novelas brasileiras, o comum é as tramas acontecerem fora do trabalho, no mundo familiar ou do lazer. Raramente as pessoas aparecem trabalhando e, se aparecem, não aparentam muito entusiasmo com suas ocupações.

Outro ponto de observação interessante é o zelo pelo trabalho: se o trabalho é uma forma de atingir a certeza da graça ou é um dever para com Deus, decorre daí que Deus vê quem está trabalhando. Logo, não adianta fingir que se trabalha, ou “matar” o serviço: se o trabalho é um dever para com Deus, deve ser realizado com dedicação e eficiência, pois – do contrário – será uma atividade pecaminosa. Por outro lado, se o trabalho é um castigo decorrente do pecado, se ele não está associado a Deus, se Deus não se importa com o trabalho, ele pode ser feito de qualquer modo, seja fingindo que se está trabalhando, seja matando o serviço. Se o trabalho não é um dever para com Deus, será indiferente para o Criador se for realizado com ou sem dedicação e eficiência: mesmo um trabalho mal feito, nunca será pecaminoso.
Isto tudo não significa que todo protestante é um dedicado trabalhador ou que todo católico não trabalha de boa vontade. Significa, apenas, duas visões de duas religiões sobre o trabalho e as possibilidades destas visões influenciarem culturas e pessoas.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Dia do Trabalho 1

Para os protestantes, trabalho e a industriosidade são um dever para com Deus

Max WEBER, na obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Trad. M. Irene de Q. F. Szmrecsányi e Tamás J.M.K. Szmrecsányi, Livraria Pioneira Editora, SP., 4 ed., 1985, pp. 128-12) afirma que a ascese protestante aprofundou até o máximo o ponto de vista de que o trabalho consciente, mesmo por baixos salários, da parte daqueles a quem a vida não oferece outras oportunidades, é algo de sumamente agradável a Deus. Mas, ainda segundo WEBER, o aprofundamento de tal ponto de vista ocorreu porque a ascese protestante produziu uma norma, que sozinha, bastou para tornar eficiente este ponto de vista: a da sua sanção psicológica através da concepção do trabalho como vocação, como meio excelente, quando não único, de atingir a certeza da graça. Por outro lado, ela legalizou a exploração dessa específica vontade de trabalhar, com o que também interpretava como vocação a atividade do empresário. Não é difícil perceber quão poderosamente a procura do reino de Deus, apenas através do preenchimento do dever vocacional, e a estrita ascese imposta naturalmente pela Igreja, especialmente nas classes pobres, iria influenciar a produtividade do trabalho, no sentido capitalista da palavra. O tratamento do trabalho como vocação era tão característico para o moderno trabalhador, como a correspondente atitude aquisitiva do empresário. Foi a percepção dessa situação, então nova, que levou um observador anglicano tão arguto como Sir William Petty a atribuir o poderio holandês do século XVII ao fato de os numerosos dissenters (calvinistas e batistas) serem em sua maioria "pessoas que encaram o trabalho e a industríosidade como seu dever para com Deus”.


Para os católicos, o trabalho é realizado para ganhar o pão com o suor do rosto

Na Encíclica Laborem exercens, de 14.9.1981, o Papa João Paulo II vê o trabalho como forma do homem procurar o pão quotidiano e contribuir para o progresso contínuo das ciências e da técnica, e sobretudo para a incessante elevação cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os próprios irmãos. Diz ainda o Pontífice, na referida encíclica, que Se é verdade que o homem se sustenta com o pão granjeado pelo trabalho das suas mãos (...) - então é igualmente verdade que ele se alimenta deste pão com o suor do rosto (...).
Na encíclica, se reconhece que (...) embora seja verdade que o homem está destinado e é chamado ao trabalho, contudo, antes de mais nada o trabalho é “para o homem” e não o homem “para o trabalho”. A finalidade do trabalho é o homem.
O documento papal de 1981 registra que o homem, depois de ter infringido a aliança original com Deus, ouviu estas palavras: ‘Comerás o pão com o suor da tua fronte’. E acrescenta que Tais palavras referem-se àquela fadiga, por vezes pesada, que a partir de então passou a acompanhar o trabalho humano. O trabalho se destina a fazer com que o homem submeta a terra. E é fatigante – insiste a Encíclica – fadiga que é um fato universalmente conhecido, porque universalmente experimentado.
Muito embora unido com a fadiga e o esforço – diz a Encíclica – o trabalho não cessa de ser um bem, de tal sorte que o homem se desenvolve mediante o amor pelo trabalho.
O documento Pontifício entende que não se podem separar o "capital" do trabalho e que de maneira nenhuma se pode contrapor o trabalho ao capital e o capital ao trabalho, e, menos ainda (...) se podem contrapor uns aos outros os homens concretos, que estão por detrás destes conceitos. E reconhece que o trabalho — nos diversos sentidos da palavra — é uma obrigação.
Disse, ainda, o Papa que O homem deve trabalhar, quer pelo fato de o Criador lh'o haver ordenado, quer pelo fato da sua mesma humanidade, cuja subsistência e desenvolvimento exigem o trabalho. O homem deve trabalhar por um motivo de consideração pelo próximo, especialmente consideração pela própria família, mas também pela sociedade de que faz parte, pela nação de que é filho ou filha, e pela inteira família humana de que é membro, sendo como é herdeiro do trabalho de gerações e, ao mesmo tempo, co-artífice do futuro daqueles que virão depois dele no suceder-se da história. Tudo isto, pois, constitui a obrigação moral do trabalho, entendido na sua acepção mais ampla.
Mas, a Laborem exercens insiste na questão da fadiga do trabalho e o relaciona com o pecado: "Todo o trabalho", seja ele manual ou intelectual, anda inevitavelmente conjunto "à fadiga". O Livro do Gênesis exprime isto mesmo de maneira verdadeiramente penetrante, ao contrapor àquela benção original do trabalho, contida no próprio mistério da Criação e ligada à elevação do homem como imagem de Deus, a "maldição" que o "pecado" trouxe consigo: "Maldita seja a terra por tua causa! Com trabalho penoso tirarás dela o alimento todos os dias da tua vida". Esta pena ligada ao trabalho indica o caminho da vida do homem sobre a terra e constitui "o anúncio da morte": " Comerás o pão com o suor da fronte, até que voltes à terra da qual foste tirado...".
E termina assim a Encíclica Papal:
No trabalho humano, o cristão encontra uma pequena parcela da cruz de Cristo e aceita-a com o mesmo espírito de redenção com que Cristo aceitou por nós a sua Cruz. E, graças à luz que, emanando da Ressurreição do mesmo Cristo, penetra dentro de nós, descobrimos sempre no trabalho um vislumbre da vida nova, do novo bem, um como que anúncio dos "céus novos e da nova terra", os quais são participados pelo homem e pelo mundo precisamente mediante o que há de penoso no trabalho. Mediante a fadiga e nunca sem ela. Ora tudo isto, por um lado, confirma ser indispensável a cruz numa espiritualidade do trabalho humano; por outro lado, porém, patenteia-se nesta cruz, no que nele há de penoso, um bem novo, o qual tem o seu princípio no mesmo trabalho: no trabalho entendido em profundidade e sob todos os aspectos, e jamais sem ele.



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Riqueza, Protestantismo e Trabalho

O livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo é um estudo do sociólogo Max Weber sobre eventual influência da religião sobre a economia. Os trechos abaixo transcritos, da página 110 até a página 127, dão uma idéia de como o trabalho constante, somado à poupança e a uma vida onde a riqueza é uma forma de homenagear a Deus, podem levar nações à riqueza. Vamos aos trechos que selecionei:

Exemplos de condenação da procura de bens e de dinheiro podem ser encontrados em quantidade nos escritos puritanos, e comparados com a literatura da baixa Idade Média, muito mais liberal a este respeito.
E ela é levada absolutamente a sério com tais dúvidas - que merecem um exame mais cuidadoso para a devida compreensão de seu significado ético e das suas implicações. Isto porque, a verdadeira objeção moral refere-se ao descanso sobre a posse, ao gozo da riqueza, com a sua conseqüência de ócio e de sensualidade, e, antes de mais nada, à desistência da procura de uma vida "santificada". E apenas é condenável porque a riqueza traz consigo este perigo de relaxamento. Pois o "eterno descanso da santidade” encontra-se no outro mundo; na Terra, o Homem deve, para estar seguro de seu estado de graça, "trabalhar o dia todo em favor do que lhe foi destinado". Não é, pois, o ócio e o prazer, mas apenas a atividade que serve para aumentar a glória de Deus, de acordo com a inequívoca manifestação da Sua vontade.
A perda de tempo, portanto, é o primeiro e o principal de todos os pecados. A duração da vida é curta demais, e difícil demais, para estabelecer a escolha do indivíduo. A perda de tempo através da vida social, conversas ociosas, do luxo, e mesmo do sono além do necessário para a saúde - seis, no máximo oito, horas por dia - é absolutamente indispensável do ponto de vista moral. Não se trata assim do "Time is Money" de Franklin, mas a proposição lhe é equivalente no sentido espiritual: ela é infinitamente valiosa, pois, de toda hora perdida no trabalho redunda uma perda de trabalho para a glorificação de Deus. Daí não ter valor e, eventualmente, ser diretamente condenável a contemplação passiva, quando resultar em prejuízo para o trabalho cotidiano, pois ela é menos agradável a Deus do que a materialização de Sua vontade de trabalho. Para isso, existe o domingo, e, segundo Baxter, são os que não estão absortos em sua vocação, que nem para Deus têm tempo, na hora existente para esse mister.
De acordo com isso, apresenta-se, no principal trabalho de Baxter, uma pregação constante, às vezes quase apaixonada, em prol de um trabalho físico ou mental mais duro e constante. Isto é devido à ação conjunta de dois fatores. De um lado, o trabalho é o velho e experimentado instrumento ascético, apreciado mais do que qualquer outro na Igreja do Ocidente, em acentuada contradição com o Oriente, mas também com quase todas as ordens monásticas do mundo.
(...)
Mas, o mais importante é que o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida. A expressão paulina "Quem não trabalha não deve comer" é incondicionalmente válida para todos. A falta de vontade de trabalhar é um sintoma da ausência do estado de graça.
Aparece aqui, visivelmente, o desvio da posição medieval. Também São Tomás de Aquino havia interpretado essa frase. Depois dele, todavia, o trabalho foi considerado necessário naturali ratione para o sustento da vida individual e coletiva. Onde não há essa necessidade, cessa também a validez dessa prescrição. Ela só se refere à espécie, e não a cada um individualmente. Quem puder viver de sua propriedade sem trabalhar não depende dela, e, naturalmente, a contemplação, como forma espiritual de trabalho no reino de Deus, parece o significado literal. Além disso, para a teologia popular da época, a forma mais elevada de produtividade monástica, estava no aumento do Thesaurus ecclesiae, através da oração e do canto .
Essas conexões ao dever de trabalhar não só deixam de prevalecer naturalmente para Baxter, como ele ainda fez questão de frisar energicamente que a riqueza não eximia quem quer que fosse do mandamento universal. Nem o rico pode comer sem trabalhar, pois mesmo que não precise disto para o seu sustento, ainda assim prevalece o mandamento de Deus, que deve ser obedecido por ele, tanto quanto pelo pobre.
(...)
A riqueza, desta forma, é condenável eticamente, só na medida que constituir uma tentação para a vadiagem e para o aproveitamento pecaminoso da vida. Sua aquisição é má somente quando é feita com o propósito de uma vida posterior mais feliz e sem preocupações. Mas, como o empreendimento de um dever vocacional, ela não é apenas moralmente permissível, como diretamente recomendada. A parábola do servo que foi desaprovado por não ter aumentado a soma que lhe foi confiada serve para expressar isso diretamente. Querer ser pobre, como repetidas vezes se disse, equivalia a querer ser doente, era reprovável do ponto de vista da glorificação do trabalho e derrogatório à glória de Deus. Especialmente a mendicância dos capazes de trabalhar não constitui apenas um pecado de preguiça, mas ainda, de acordo com a palavra do apóstolo, uma violação do dever de amor ao próximo.
(...)
Combinando essa restrição do consumo com essa liberação da procura de riqueza, é óbvio o resultado que daí decorre: a acumulação capitalista através da compulsão ascética à poupança. As restrições impostas ao uso da riqueza adquirida só poderiam levar a seu uso produtivo como investimento de capital.
(...)
Transcrevemos aqui um trecho de John Isto, porque mostrara que os líderes desses movimentos ascéticos compreendiam muito bem as relações aparentemente tão paradoxais que aqui analisamos. Assim escreve ele:

"Temo que, toda vez que a riqueza aumenta, a religião diminui na mesma medida. Não vejo, daí, como é possível, na natureza das coisas, conservar durante muito tempo qualquer revivência da verdadeira religião. Porque a religião deve necessariamente produzir tanto a operosidade (industry) como o senso de economia (frugality), e essas só podem produzir riqueza. Quando esta aumenta, crescem o orgulho, a paixão e o amor ao mundo em todas as suas formas. Como será então possível ao Metodismo, isto é, a uma religião do coração, continuar neste sentido, por mais que agora esteja a florescer como uma árvore nova? Os metodistas tornaram-se laboriosos e econômicos em toda parte; consequentemente, aumenta a sua riqueza. E, proporcionalmente, crescem neles o orgulho, as paixões, os apetites da carne e do mundo, e a soberba da vida. Assim, embora permaneça a forma da religião, seu espírito rapidamente se desvanece. Não haverá algum meio para evitar essa decadência da pura religião? Não devemos deixar de recomendar às pessoas que sejam laboriosas e econômicas. Devemos exortar todos os cristãos a ganhar tudo o que for possível, e a economizar o máximo possível; isto é; em outras palavras, a se enriquecerem"
Segue-se a exortação de que "aqueles que ganham tudo o que podem e poupam quanto podem" também "devem dar tudo o que podem", para assim crescer na graça de Deus, e amealhar um tesouro no céu.
O que a época de grande religiosidade do século XVII legou a seus utilitários sucessores foi, todavia, uma consciência incrivelmente boa - podemos até dizer farisaicamente boa - do endinheiramento, enquanto ocorresse por vias legais. Com ela desapareceu todo o resto do Deo placere vix potest.
Uma ética profissional especificamente burguesa surgiu em seu lugar. Consciente de estar na plena graça de Deus, e sob a sua visível bênção, o empreendedor burguês, enquanto permanecesse dentro dos limites da correção formal, enquanto sua conduta moral fosse sem manchas e não fosse objetável o uso de sua riqueza, podia agir segundo os seus interesses pecuniários, e assim devia proceder. O poder da ascese religiosa, além disso, punha à sua disposição trabalhadores sóbrios, conscientes e incomparavelmente industriosos, que se aferraram ao trabalho como a uma finalidade de vida desejada por Deus. Dava-lhe, além disso, a tranquilizadora garantia de que a desigual distribuição da riqueza deste mundo era obra especial da Divina Providência, que, com essas diferenças, e com a graça particular, perseguia seus fins secretos, desconhecidos do homem.