sábado, 27 de novembro de 2010

"A escola de dona Júlia"


O texto a seguir descreve o cotidiano profissional de uma professora primária, no início do século XX, na cidade de Itajaí/SC.


 
Durante longo período, mais de um quarto de século, uma parte da população de Itajaí frequentou a escola de D. Júlia Miranda. Foi lá que aprendi a ler e a escrever, assim como meus irmãos, primos, amigos e conhecidos.
A figura de D. Júlia está nitidamente gravada em minhas impressões de infância. Era uma senhora de meia-idade, de pequena estatura e magrinha; usava quase sempre paletó de fazenda claro e saia preta. Quando ela passava de um lado para outro, muito pequena, olhando para tudo com os olhos escuros e vivos por trás dos óculos - que pareciam muito grandes no seu rosto miúdo - não aparentava a energia de que era possuidora.
A escola ficava pouco adiante de nossa casa, à rua Lauro Müller, num pequeno chalé de madeira, pintado de cinzento, com um jardinzinho na frente. A sala de aula ocupava a metade da casa e D. Júlia residia na parte de trás, com a sobrinha Tereza. O mobiliário era modesto: cadeiras "de italiano", onde sentavam os grandes, e, em frente a elas, uma fila de cadeirinhas da mesma fabricação, poro os menores.
No fundo da sala a mesa onde D. Júlia, sempre muito atenta, tomava as lições e corrigia os erros.
Todos tinham lousas para escrever e eu gostava dos lápis porque eram envoltos até ao meio em papéis coloridos.
Quem passasse pela escola, no período da manhã, escutaria o b-a-bá dos que soletravam, ou a taboada dos mais adiantados. A parte da tarde era silenciosa, porque, só havia aula de bordados. Lembro-me, também, de um pormenor interessante:

Todos os dias, às quatro horas, batiam na porta. Era o rapaz das roscas. D. Júlia levantava-se logo e ia atender, levando na mão uma moeda escura, de quarenta réis. Abria a porta e tirava do balaio duas grandes roscas de polvilho. Entregava uma a Tereza e ficava com a outra, para comer com o café que daí a pouco a sobrinha lhe trazia, e ela tomava ali mesmo
o me lembro de ter visto palmatória na sala de aula. D. Júlia castigava com a régua e tamm com um pequeno instrumento, aparentemente inofensivo mas que inspirava grande respeito: o seu dedal. Trazia-o muitas vezes, porque, sempre que podia ocupava-se com alguma costurinha. Nessas ocasiões, se alguém merecia castigo, ela não ia buscar a régua: levantava a mão até à cabeça do aluno e, com o dedo em que tinha o dedal, dava um croque!

 


 

O texto acima foi escrito na década de 1940. Está no livro "Uma Menina de Itajaí", de Raquel Liberato Meyer, editado em 1961, edição póstuma, pelos familiares da autora. A crônica está nas páginas 42 e 43.

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