A Morte de Joca Brandão

Itajaí, 1.11.1930 - Cemitério
Joca Brandão em outra foto

Detalhe da foto acima: Joca discursa
Joca Brandão (João Marques Brandão) foi meu avô. Morreu em 1.11.1930, fazendo um discurso em homenagem ao golpe ou revolução de 1930. Provavelmente esta circunstância é que deve ter contribuído para ele virar epônimo de uma Avenida, em Itajaí.
Durante muito tempo minha mãe indicava foto acima, que dizia ser do dia em que meu avô morreu. Dizia que estava no cemitério, local onde foi proferido o discurso e alguém gritou: "Morreu um homem!" E ela desandou a correr. Não sabia que, anos mais tarde, casaria com o filho daquele homem que estava morrendo. Aí já há uma curiosidade: a casa de meu avô materno ficava a uns 500 m do cemitério e minha mãe, com 6 anos, deve ter ido lá sozinha, pois dizia que voltou correndo para casa. Por aí se vê que a cidade era muito pacata, especialmente considerando que meu avô materno era muito rigoroso com as filhas.
Pois bem, revendo a foto, só agora percebi um vulto muito próximo do local em que meu pai dizia que meu avô paterno havia caído morto (causa da morte: enfarto). É apenas uma cabeça, calva. Hoje, que as digitalizações permitem um aumento maior do que as lupas, percebi que o homem estava falando como quem discursava e tinha as feições de meu avô paterno. Ou seja, ele foi fotografado minutos antes de morrer.
Assim foi descrita a morte de João Marques Brandão, por Juventino Linhares:

Doloroso acontecimento


Quando falava junto ao túmulo de Pedro Ferreira caiu, vítima de uma síncope, falecendo instantaneamente, o sr. João Marques Brandão


    A família itajaínse sofreu, na manhã de hoje, um desses rudes golpes de cuja realidade a gente custa a se compensar. 

    Depois de realizada, na Praça João Pessoa, a solene missa campal em ação de graças pelo restabelecimento da paz na família brasileira, iniciou-se a segunda parte do programa das manifestações cívico-religiosas com que a Junta Governativa deste município comemorava a reintegração do país no regime da lei, a qual constava de uma romaria ao túmulo do inesquecível médico dr. Pedro Ferreira e Silva que, na administração da terra itajainse, realizou obra de vulto tal que jamais poderá ser relegada ao olvido, vindo a cair também, por fim, vítima da política de opressão que então iniciava a sua obra anti-republicana.

    Para falar nesta homenagem apresentou-se o sr. João Marques Brandão, inteligente e esforçado conterrâneo que demonstrava sempre a maior satisfação todas as vezes que lhe era dado participar de homenagens e comemorações referentes à terra itajaiense pela qual dedicava entranhado amor que atingia as raias da idolatria. 

     João Marques Brandão realizava também, com esse seu gesto, uma inspiração de há longo alimentada e que sempre manifestava todas as vezes que uma injustiça mais grave era, pelos opressores, lançada sobre o povo, aspiração que se resumia nesta frase que ele proferiu tantas vezes: “Ainda hei de falar junto ao túmulo de Pedro Ferreira”.

      E o dia tão ansiosamente esperado durante longos anos chegou afinal. João Marques Brandão, de pé em um caixão colocado sobre a pedra do túmulo, segurando em uma das mãos a coroa de flores naturais, à qual se achava atado um laço com a inscrição “Homenagem do povo ao inolvidável Pedro Ferreira” iniciou, com a voz embargada pela comoção, a vibrante oração. Solicitou depois preces para os que jaziam sob aquele chão. Parou alguns segundos orando. Exaltou depois a figura homérica de João Pessoa. Lágrimas a deslizarem pelas faces entrou a referir-se a Pedro Ferreira, cuja vida e martírio começou a analisar. “Fora dos promotores da homenagem da trasladação para a Prefeitura, do retrato desse companheiro…” A comoção embargou-lhe a voz. Empalideceu. Fraquejaram-lhe as pernas, e antes que a grande multidão que o cercava se apercebesse do que se passava, caiu ao solo, nos estertores de uma agonia rápida. Braços ergueram o corpo ao ar levando-o para um automóvel em busca de socorro médico. Enquanto isso o sopro se extinguia, chegando o corpo já sem vida ao hospital.

     O cadáver do inolvidável Joca repousa na residência de sua família, de onde sairá amanhã para o derradeiro leito devendo enterro ser feito às expensas da população, que tanto o queria e admirava, e se empenha nesta hora em prestar-lhe esta derradeira homenagem. (publicado no jornal O Pharol de Itajaí, provavelmente datado de 1º de novembro de 1930, dia do falecimento de João Marques Brandão (Joca).



A primeira publicação desta postagem foi no dia 22/3/2011. Dia 21 de março é o dia de fundação da Sociedade Guarani, em Itajaí. Meu avô paterno, Joca, a fundou em 1897 e construiu a primeira sede num terreno doado por meu bisavô. O Guarani é uma sociedade recreativa e cultural.
Primeira Sede da Soc. Guarani/Itajaí/SC



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