Religião e Estado 26 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

 África Central e Oriental 5  - 




Dando continuidade às postagens sobre Religião e Estado, relato, aqui, a descrição que CADORNEGA faz da conversão da então Rainha de Angola N’Zinga (Nzinga) M’Bandi (Mbandi) (Ginga/Jinga) , de sua religião originária, para o catolicismo. (pp. 167-170/433-435pdf ). Nzinga foi uma Rainha Angolana no século XVII. Ela seguia sua religião nativa e, em decorrência da colonização portuguesa, mudou para o catolicismo. Em decorrência desta mudança, abandonou seus símbolos e imagens (nquisses/nquises) ligados à prática religiosa de seus ancestrais e assumiu os do catolicismo. É o que se pode ler a seguir, na linguagem de CADORNEGA.


O Padre Capuchino e Missionário Apostólico Frei Antônio Romano reduziu Ginga/Nzinga/Jinga à fé de nosso Senhor Jesus Cristo, fazendo-a detestar de todas suas Idolatrias Gentílicas, entregando com suas pregações e santas admoestações um Cofre a que chamam na sua língua Mosete, todo de prata maciça, em que encerrava dentro os ossos de seus antepassados com muitas outras imundícias, o que tinha esta Rainha em grande veneração, fazendo-lhe muitos sacrifícios de gente que mandava matar em seu obsequio, derramando-lhe muito vinho, e fazendo-lhe outras oferendas de Animais de toda a Casta; degolando-lhos e vertendo-lhe o sangue ao pé onde o tinha colocado, e todas as vezes que saía fora o levava consigo, e tinha esta Rainha para si que levando-o consigo, levava nele amor, fortaleza e o bom sucesso de suas empresas, e se lhe sucedia mal em algumas ocasiões de guerra o atribuía a estarem seus defuntos e antepassados dela enfadados por lhe não haver feito as oferendas mais copiosas e a miúdo, e assim lhe revelava o Pai das maldades para desta sorte ser mais venerado e ter muitos sacrifícios não de Animais imundos se não de gente racional que ainda que Gentia e Idolatra assim a queria para fartar a sede que tem contra o Gênero Humano;  o qual Mosete, o dito Padre Capuchino trazia com sigo, que o Autor desta história viu, e outras muitas pessoas, e lho entregou para dele se fazer uma lâmpada para a Igreja que intentava fazer, como com efeito fez, trazendo mais prata para Cruz e Castiçais o que mandava por seus Enviados à ordem do Padre Capucho, com peças para a paga dos feitios. Fê-la tirar de seus Concubinatos que tinha de homens encerrados fazendo-lhos largar, e só lhe ficar a Mulher principal, que esse nome lhe dava ao qual ela mais amava, com quem a casou (em 4-4-1657) na forma e ordem da Santa Madre Igreja, dando-lhe ela o título de seu marido [Dom Salvador se chamava o marido da Rainha Ginga. (Nota marginal do Autor).] e não de Rei, que esse só era reservado a si, respeitando-o todos como o Consorte de sua Senhora.


Fez casar, batizados primeiro, todos os principais Macotas e Capitães e após eles todos os mais daquele poderoso Quilombo, à imitação e exemplo da Rainha sua Senhora, que em estando a Cabeça doente, todo o Corpo está, e são a todo ele comunica sua saúde. Entregou mais ao Padre Capucho, que foi a coisa que mais admirou a quem daquela matéria tinha mais conhecimento, as malungas (Dilunga, malunga, argola, bracelete – nota de DELGADO) de metal que trazia nos braços feitas e forjadas com grandes Cerimônias e Superstições Gentílicas, que dizia em outro tempo era o que lhe sustentava a vida, as quais lhe serviam de familiar onde lhe dava o diabo sinal de tudo o que queria saber ou com mentira ou com verdade e lhe falava à Orelha (...); mas era obra diabólica para ter a esta miserável Rainha enredada com seus enganos para que assim lhe tributasse obséquios e adorações: o dito Religioso vestido com sobrepeliz e estola em Auto público as mandou pôr no fogo com outras muitas buxinifadas (BOXINIFADA/MOXIFINADA — segundo CADORNEGA são pequenos objetos, alguns imundos, de que se servem os feiticeiros.), e certificou o Padre e pessoas portuguesas que se achavam presentes que foi tal o fedor daquele incêndio que não havia quem o pudesse suportar muito ao largo, dando grandes estouros que parece estava ali o Inferno todo (...). Menciona um fato parecido ocorrido na Índia.

Considere o pio Leitor que alegria teriam aqueles virtuosos Capuchinhos e Missionários Apostólicos em ver que na gema de tantos Bárbaros Idolatras haviam feito fabricar um Templo tão suntuoso a Deus e a sua Santíssima Mãe, onde até então se não conhecia nem adorava se não o Pai das trevas e seus ídolos, e estarem reduzidos a darem as devidas adorações a Deus, Criador dos Céus e da terra; deixando a criatura que os trazia enredados para os precipitar no abismo do Inferno, observando agora aquela Gentilidade os costumes Cristãos que ensina a nossa santa fé Católica; detestando suas Idolatrias, ritos gentílicos e adoração de seus ídolos: (...). 

Mais adiante, diz que a Gentilidade era gente maliciosa e que queria viver metida em suas imundícias, dando adorações a seus Ídolos diabólicos (...); mas o rato sempre foge para o mato, e este gentio quer antes ser do Demo, que de Deus Criador dos Céus e da terra (p. 248/474pdf). 


(esta é uma continuação  aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo II  ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)



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