Religião e Estado 29 (no L. 4 das Ordenações Filip.)
África Central e Oriental 8 -
De como morreu O Alma no sertão d’Angola, mesmo sendo um baqueano.
Prossigo nas narrativas de CADORNEGA sobre as práticas religiosas originárias, em Angola e região, no século XVII. Aqui se narra sobre como um indivíduo conhecido por O ALMA foi morto por atentar contra uma cerimônia religiosa dos nativos.
O ALMA era um baqueano. No livro de CADORNEGA há anotadores diferentes, um é DELGADO o outro é CUNHA. CUNHA, em nota de rodapé, explica o que é baqueano (p. 102/719pdf): Baqueano — termo empregado no sentido de — gente já acostumada ao sertão, Já aclimada no sertão, — vocábulo vulgar na linguagem da época em Angola e no Brasil. Este termo é usado para narrar a história de um morador do sertão, que vivia escondido na mata por alguns crimes que havia cometido. Um certo dia ele entrou na cidade e foi falar com o Governador, dizendo que poderia indicar onde estava O ALMA. Ganhou presentes por conta da entrega. Foi embora e alguém disse ao Governador que aquele homem era o Alma. O Governador mandou perseguí-lo, mas como O ALMA era baqueano, não foi encontrado. Páginas mais adiante, CADORNEGA narra um episódio em que O ALMA se defrontou com um leão e ambos ficaram se encarando, o leão parado e O ALMA – que era caçador – com sua espingarda pousada sobre uma forqueta, se preparando para atirar. Ocorre que O ALMA esperava o ataque do leão, pois se este não o atacasse, não atiraria para não correr o risco de errar o tiro e ser devorado pelo animal. Entretanto, depois de um tempo, o leão foi embora. E O ALMA mandou um nativo que o servia ir ver aonde o leão tinha ido. O nativo confirmou que o leão fora embora (pp. 103-104/719-710pdf). Na sequência, CADORNEGA descreve a morte d'O ALMA (o nome completo era Diogo Dias Alma): ele tentou dissolver uma cerimônia religiosa dos nativos e foi morto. A descrição de CADORNEGA é muito interessante (pp. 104-105/720pdf):
(...) vindo um dia em uma canoa rio acima, passando de fronte das terras e senhorio do sova Gumgo Amocambo, e vendo estar a uma vista muito gentio daquele senhorio, com grandes gritas e algazarras, e perguntando o que era aquilo, lhe disseram os que o acompanhavam, estava aquele gentio fazendo feitiçarias e invocando o Diabo e a seus ídolos para que chovesse e lhes dessem água para suas sementeiras, por haverem faltado a seu tempo; foi tanta a paixão que este valoroso soldado tomou de ver diante de seus olhos tal desaforo, que saltou em terra daquela parte com a gente pouca que levava e temerariamente, se bem que com zelo católico, foi avançando aquele diabólico ajuntamento, fazendo-lhes seus tiros, entre os quais matou uma dignidade principal, os quais, irritados disso e de os estorvarem em suas diabolarias, muitos deles acompanhados do Demônio, que nestas ocasiões se lhe mete no corpo, agradecido a ser deles venerado, que com resolução investiram ao bom do Diogo Dias Alma, e sem lhes dar de seus tiros, o vieram buscar à sua canoa em que já se havia metido; mas foram tais os seus escravos, que com medo da multidão se botaram ao rio; podendo afastar a canoa para fora; e como seu senhor havia aprendido (Apreendido — empreendido aquela faução, isto é, aquela facção ou partido) aquela faução contra suas vontades, que não queriam que se estorvasse honra que se fazia, aquém eles também não desprezavam o com serem batizados.
E assim fizeram pouco pelo salvar, deixando-o na mão de seus inimigos, os quais despois de lhes darem muitas feridas, havendo vendido sua vida à custa de muitos daqueles idólatras, não podendo mais o amarraram e levaram ao lugar do seu ajuntamento, onde fizeram obséquio de sua vida aos seus ídolos, fazendo-o ali em postas e migalhas; e poucos ou nenhuns sovas houve daquela bárbara província que não tivessem por repartição o seu pedaço, assim pelo grande ódio que lhe tinhão, como por ser apanhado naquela ocasião, estando com suas cerimônias gentílicas, rendendo adorações ao Pai da maldade; e puseram sua cabeça em cima de um xalo, ou girão alto, para memoria daquela façanha; o que tudo foi sabido pelos negros tratantes dos portugueses, que naquela província de Quisama andavam.
(esta é uma continuação aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA - , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo III - - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)

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