Religião e Estado 30 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

 África Central e Oriental 9  - 




Nesta narrativa, CADORNEGA descreve mais um encantamento de animal. Um crocodilo (que CADORNEGA chama de lagarto) abocanha um menino nativo (que CADORNEGA denomina “muleque”), mas o menino é salvo por um homem que persuade o crocodilo a devolver a criança.

Um bispo (p. 113/727pdf) queria ver os monstros marinhos (os hipopótamos, que CADORNEGA chama de cavalos marinhos).  Para tanto, chamaram um nativo (negro) que era encantador (encantava os hipopótamos). O encantador, tocando umas inxias, que são apitos, fizera com sua arte, não boa, vir aonde foram bem vistos do Bispo e dos mais circunstantes, e andar ele mui confiado entre eles e as vezes pondo-se em cima de alguns. 

Ao falar do rio Lucala, CADORNEGA diz que a nascente dele e dos rios Dande e Lifua é nas terras do sova Dembo Samba Angombe. Diz que bebeu das águas e comeu do peixe do rio Lifua e que este peixe tinha muitas espinhas (p. 129/737pdf). Depois passa a narrar (pp. 129-130/737-738pdf) sobre um crocodilo que atacou um menino. CADORNEGA se referiu ao menino usando a palavra “muleque”, nunca o tratando por criança ou menino. Mais adiante, refere-se ao menino como negrinho.  Segue-se a transcrição do trecho do livro de CADORNEGA. 

(...) Na Lagoa da Misericórdia, que assim se chama por ficar perto da Santa Casa, sucedeu ir um muleque de seu capelão, por nome o Padre João da Costa, a buscar água a ela; em um continente veio um lagarto, que por ali, não faltam, e agarrando o pobre negrinho, o ia levando para o íntimo dela o ir comer; acudiu neste comenos um negro que morava ali perto em um tezo (Em um continente—imediatamente. Teso —morro, alto do morro) de onde se descobria bem aquela lagoa; e vendo que o lagarto o ia levando à vista de muita gente que estava vendo aquele lastimoso sucesso, começou o dito negro a falar com o lagarto, fiado em suas ruins habilidades e encantos, dizendo-lhe não bolisse, nem lhe fizesse mal, que era o muleque do padre; isto pela sua língua da terra, com outros protestos e requerimentos, os quais valeram tanto e as forças de suas palavras e razões, que aquele feroz lagarto, obedecendo a elas, largou o negro; e como esta lagoa é de pouco fundo e não era tempo de seu crescimento, se veio a vau para terra com pouca lesão, mais que a primeira mordedura, por onde primeiro lhe pegou; o que foi coisa que espantou e admirou a muitos que o viram, obedecer aquele lagarto aos esconjuros diabólicos daquele negro. 

(esta é uma continuação  aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA - , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 Tomo III  -  - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)



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