Religião e Estado 42 (no L. 4 das Ordenações Filip.)
África Central e Oriental 21 -
Além da obra de CADORNEGA, outra há que descreve rituais no Congo e em Angola no Século XVII: trata-se da obra Descrição histórica dos três reinos: Congo, Matamba e Angola, de Giovanni CAVAZZI. Na edição portuguesa, o nome de CAVAZZI foi traduzido, ficando João António Cavazzi de Montecúccolo. A tradução do italiano para o português e as anotações foram feitas por Graciano Maria de Leguzzano. A publicação ocorreu em Lisboa, pela Junta de Investigações do Ultramar, em 1965. Foram 2 volumes, com ilustrações: o 1.º volume com 428 páginas e o 2.º volume com 492 páginas. Esta edição está esgotadíssima e eu nunca tive notícia de uma outra edição em português. Há alguns trabalhos a respeito desta obra, como A construção do discurso de Giovanni Antonio Cavazzi sobre a África do século XVII, de Ingrid Silva de Oliveira.
Para esta postagem, irei utilizar um excelente texto de Daniel Precioso: Religiões centro-africanas pela ótica de um capuchinho: rituais, objetos sagrados e sacerdotes na Istorica Descrizione (1687), de Giovanni Cavazzi. Procurarei apenas noticiar o que consta do texto de PRECIOSO, uma vez que tal texto merece ser lido. Publicado na Internet (ver links acima), o texto original está na Revista de fontes, v. 12, n. 22 - Guarulhos, junho de 2025 - ISSN 2359-2648, pp. 134-164.
Após uma análise que PRECIOSO faz do livro de CAVAZZI, há uma transcrição da obra a partir da p. 142. É o resumo desta descrição que farei nas próximas postagens.
CAVAZZI informa que havia pessoas no Congo, Angola e Matamba do Século VII que aparentam seguir o catolicismo, mas, na verdade, são devotas das religiões locais. Os ministros destas religiões locais curam doenças. Estas religiões tinham um deus chamado Nzambiampungù e outros deuses inferiores. Havia uma quantidade de imagens, a maior parte de madeira, cada imagem com o nome da divindade representada. Quando um dos sacerdotes das religiões locais visitava um enfermo, carregava o doente com as imagens ou as pendurava nas paredes. Alguns dos enfermos mantinham as imagens em suas casas. A seguir, CAVAZZI passa a descrever as especialidades de cada ganga ( = sacerdote em kimbundo).
O ganga Itiqui era o ministro que recebia as dádivas dos ofertantes e as colocava nos altares, em frente às imagens das divindades, algumas das quais tinham aparência masculina e outras, feminina; outras, ainda, imagens de animais, feras, monstros e demônios. Havia dias para sacrifícios solenes e cerimônias. As águas das primeiras chuvas que caíam, eram coletadas e ofertadas às divindades.
No geral, não havia tempo específico (= época) para as celebrações da religião local na região do Congo, Angola e Matamba (tanto CAVAZZI, como CADORNEGA, chamam a África de Etiópia), mas na renovação de cada Lua eram efetuados rituais de sacrifícios. Havia celebrações para as divindades, especialmente por motivo de alguma vitória alcançada ou saúde recuperada. Nestas celebrações havia sons e músicas para as danças e farta comida. As casas eram edificadas sob os auspícios de alguma divindade e um ganga expurgava os males, ficando na casa algum tempo para completar sua limpeza espiritual. Os gangas eram pagos pelo seu trabalho religioso.
CAVAZZI relata os pagamentos feitos pelos fiéis aos sacerdotes (gangas). Passa a descrever a cerimônia: o sacerdote (ganga) entra na casa da divindade, batendo palmas em sinal de alegria e pedindo paz e saúde aos que a honram. A seguir, são tocados instrumentos musicais e pessoas cantam. Servem-se bebidas e comida. A primeira parte da cerimônia dura três horas, depois do que as pessoas se alimentam. Após a intervalo, as pessoas voltam a cantar, tocar instrumentos e dançar. Isto dura três dias. No quarto dia há sacrifícios de humanos e de animais, na quantidade que a divindade exige. Os Quimbondos bebem sangue e sujam o rosto com ele; os seguidores de Hauiez cozinham fígado, coração, tripas e carne e comem, depois distribuindo os restos a outras pessoas. Ao final a estátua da divindade é exposta, a ela sendo oferecidas panelas com carne de cabra e legumes; como a estátua não pode aceitar a comida, esta é dividida entre as pessoas, que devolvem ao sacerdote (Ganga) os ossos, para estes serem usados como amuletos.
Os sacerdotes, ou ministros das religiões eram chamados de Gangas. O líder supremo dos Gangas era o Chitòme, ou Chitombe, ao qual eram oferecidos os primeiros frutos das colheitas. CAVAZZI explica que a entrega destes frutos tinha diversas finalidades, dentre as quais, prevenir moléstias. Muitas vezes o Chitòme ou um dos ministros dava as primeiras enxadadas na terra, para trazer a fertilidade.
No Reino do Congo e em outros lugares, certos peixes e “uma espécie da alma acamada” eram reservados para caça e alimento do Chitòme. Nas Libattas, vice-regentes cuidavam dos interesses do Chitòme. Além de ter poder nas questões religiosas, o Chitòme tinha enorme influência na eleição dos Soui (os Governadores nativos), pois ninguém se submetia a estes sem o beneplácito daquele.
O Chitòme mantinha o fogo aceso em sua casa noite e dia. Os Soui recebiam do Chitòme um pouco deste fogo quando tomavam posse das províncias. Ao Chitòmi eram comunicados assuntos de religião, política civil e guerra. Os Soui não execrciam seu cargo sem a benção do Chitòmi. CAVAZZI descreve os rituais em que se efetivava a obediência ao Chitòmi.
A casa do Chitòmi era inviolável e sagrada e a pessoa dele também, mesmo que cometesse crimes. Os casais se mantinham em celibato quando o Chitòmi visitava a região onde habitavam. O Chitòmi não podia morrer de morte natural, pois isto aniquilaria o mundo. Assim, seu sucessor devia mandá-lo embora quando adoecesse, obedecendo a um ritual.
(esta é uma continuação aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino)
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