Religião e Estado 33 (no L. 4 das Ordenações Filip.)
África 12 -
Nesta postagem poderemos ter a descrição de algumas práticas religiosas d’Angola seiscentista. Apesar de CADORNEGA descrevê-las negativamente, a leitura feita com um pouco de antídoto às assertivas parciais do referido autor, permite que se entenda um pouco do funcionamento das práticas religiosas destes nossos ancestrais.
No texto, CADORNEGA diz que...
... salvo os gentios daquela Etiópia Ocidental que eram batizados e viviam entre os portugueses, os demais davam adoração ao Diabo, venerando-o e idolatrando nele, tirando a devida adoração a Deus, como criaturas suas, invocando e chamando aquele pai das trevas infernais, deixando o Criador de todas as coisas pela criatura, pedindo-lhe remédio em suas necessidades e trabalhos e enfermidades, obrigando-o, com seus sacrifícios e oferendas e bailes desonestos a lhes vir falar, tendo para isso seus feiticeiros e gangas, que têm mais mão com ele e são mais seus mimosos pelas maldades que obram, consultando por via destes seus privados, suas doenças e aflições, ao que lhe dá por tão boas valias, suas soluções, mostrando-lhes ou ensinando-lhes paus e ervas para suas curas; e no que consultam em suas diferenças, lhes diz algumas coisas, com aparência de verdade; e com uma madura lhe dá muitas verdes, tudo afim de os enredar e levar às suas profundezas. (pp. 255-256/833-834pdf).
Tendo diversos ídolos, com vários nomes diabólicos em obsequio do pai da maldade, já de quibuco, já de naveza, de mugiganga, e outros com diferentes apelidos, a quem veneram também e fazem sacrifícios, por serem e representarem sua figura e semelhança e as terem presentes para sua pena ou consolação; fazendo comezainas, bailes e matinadas de seus instrumentos que tocam, com alaridos e apupadas, que soam e se ouvem muito longe; e principalmente fazem este festejo quando aparece a lua nova, a festejam também, vestindo muitos panos de lucandas, que é da casca de um pau, de que as fazem muito brancas e finas, e as têm guardadas em seus mossetes [ Mossetes são suas caixas de guardar. (Nota marginal do Autor).], principalmente o mulherio, para este festejo, sem se servirem destas vestiduras em outro tempo, por serem dedicadas só para aquilo.
(esta é uma continuação aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA - , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo III - - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)

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