Religião e Estado 46 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

 África Central e Oriental - 25


Finalizando o excerto do texto de Daniel PRECIOSO, a respeito da obra Descrição histórica dos três reinos: Congo, Matamba e Angola, de Giovanni CAVAZZI (na edição portuguesa, o nome de CAVAZZI foi traduzido, ficando João António Cavazzi de Montecúccolo, vai esta última postagem. Ver também sobre a obra de CAVAZZI, A construção do discurso de Giovanni Antonio Cavazzi sobre a África do século XVII, de Ingrid Silva de Oliveira. O texto do qual extraí o excerto se intitula Religiões centro-africanas pela ótica de um capuchinho: rituais, objetos sagrados e sacerdotes na Istorica Descrizione (1687), de Giovanni Cavazzi, cujo original está na Revista de fontes, v. 12, n. 22 - Guarulhos, junho de 2025 - ISSN 2359-2648, pp. 134-164. Como já esclareci em outra postagem, o texto de PRECIOSO faz uma descrição do livro de CAVAZZI, seguindo-se uma transcrição da obra a partir da p. 142. É a sequência do resumo desta transcrição que tem, a seguir, sua última postagem. Depois tratarei de outros textos, ainda sobre a África Central e Oriental. 




Os Nequiti faziam assembleias em lugares remotos, em vales profundos e sombrios; na frente das casas colocavam postes trabalhados e pintados, que representavam divindades. Suas reuniões eram secretas e os sacerdotes católicos pouco conseguiam saber destes conclaves. O recinto da assembleia era chamado Muralha do Rei Congo e só “sócios” ali podiam pisar. Para entrar neste recinto, recebia-se uma corda sagrada, pela qual se devia passar muitas vezes. Depois, um Nequiti levantava esta pessoa e o levava para dentro do Chimpasso, que era o nome do local em que se realizavam as assembleias. E a pessoa tinha que permanecer como discípulo até sua morte. Caso se arrependesse em algum momento, era retida como presa, podendo se oferecida à divindade. Por tal razão os Nequitis eram temidos pelos senhores das cidades e terras nas redondezas ou na jurisdição de que vivem. E se os Nequitis “imaginam que estão sendo perseguidos”, vingam-se por meio de feitiços, fazendo os perseguidor “morrer desesperadamente”. Em caso de morte de um Nequiti, o cadáver é levado para a selva, colocado “em fronhas bem untadas com óleo de palma e polvilhadas com tacula”. E, “por meio de encantamentos, fazem parecer que está vivo”, se movimentando um pouco, ficando numa mesma posição por oito dias, até a realização do funeral.

Os albinos (na narrativa de CAVAZZI, os nascidos de pais negros) eram “muito brancos, com cabelos loiros e crespos”, visão fraca e fotofobia. Eram reverenciados entre os Nequiti. Os Ndembela (que nasciam com pés tortos) tinham grande autoridade entre os Nequiti, da mesma forma que os Pigmeus ou Anões.    

CAVAZZI enfatiza o ganga Atombola, que qualifica como “grande encantador”. Atombola dizia ser capaz de ressuscitar mortos. Nos escritos ele era intitulado Nganga Matombolas, que significa sacerdote dos homens ressuscitados. Atombola tinha um ritual de ressuscitação, que CAVAZZI descreve em seu texto e que, resumidamente, consistia em levar o cadáver para a floresta, andar em torno dele, formar figuras,  círculos, personagens, invocar divindades, incensar o cadáver, até que este desse sinais de movimento (que CAVAZZI diz ser mera simulação). Todavia, CAVAZZI informa já ter visto nativos desenterrarem cadáveres em vários cerimoniais e lugares, mencionando as províncias de Sogno, Boenza, Sundi e outras.

CAVAZZI atribui ao Diabo todas as obras dos gangas, da mesma forma que o faz CADORNEGA, assegurando, ainda, que, mesmo depois de receberem o batismo católico, os nativos continuavam a exercitar suas práticas religiosas habituais: “depois de terem recebido o Santo Batismo, continuaram a viver no mesmo engano, não tendo escrúpulos em algumas operações, que na verdade eram diabólicas e malditas.”

(esta é uma continuação  aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino) 




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