Religião e Estado 23 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

África Central e Oriental 2  -  



Sobre as práticas religiosas na África, encontramos interessante notícia história em CADORNEGA, Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680Tomo I - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.

No tomo I, CODORNEGA menciona que os centro-africanos...

seguem os costumes e ritos gentílicos na adoração de seus ídolos fazendo-lhe oferendas e sacrifícios, impetrando deles saúde para seus males e enxaquetamentos e lhes fala como Oráculo o que hão de fazer em seus males e doenças e os paus e ervas de que hão de usar, e o mesmo lhe dizem os gangas que são os seus adivinhos. CADORNEGA, em geral, coloca as religiões africanas ora como diabolarias, ora como feitiçarias. Os sacerdotes (gangas) são mencionados como adivinhos.
(pp. 38-39).


CADORNEGA é mencionado como cristã-novo em alguns textos, dos quais destaco os seguintes, com os respectivos links: Vida e Legado de António Cadornega - O cristão-novo Cadornega e sua obra sobre as guerras angolanas no século XVII - - DAR NOTICIA AO MUNDO DAS GUERRAS QUE HOUVE EM ANGOLA: CADORNEGA E A ESCRITA DA HISTÓRIA NO IMPÉRIO PORTUGUÊS (SÉCULO XVII) - ERICK CAIXETA CARVALHO SCHEFFER - acesso em 19/8/26.

CADORNEGA menciona que os nativos de Angola insistiam em se manter nas suas idolatrias e feitiçarias ambundas (p. 49). Quimpaco na Língua Muxicomga quer dizer feiticeiro p. 217. Também fala em nativos que eram capazes de encantar animais:

(...) havia Negros encantadores que eles mandariam buscar, para que na Cidade botassem Tigres, Onças, e Leões, que matassem a muitos dos Holandeses, ao que respondeu o virtuoso Bispo que não se podia fazer, que não era guerra limpa, se não muito suja, pois havia de ser feita por arte diabólica que não convinha.

P. 260. Aqui já se percebe o conflito entre religiões.



Diz ainda CADORNEGA que o Governador Pedro Cezar de Menezes evitava tudo que era contrário ao catolicismo e cita o seguinte exemplo (pp. 366-367/203pdf):

(...) fazia o Gentio e a gente batizada dos Portugueses uns bailes mui desonestos a que chamavam o Quimbuari, entrando neles homens e Mulheres, e se fazia neles muitas ofensas a Deus; estando uma noite muita gente preta naqueles desonestos bailes (no livro consta baylhos), muito acesos e descuidados, mandou o Governador cercar ao derredor de Infantaria, precedendo já sobre bando lançado, se não fizessem, onde se apanharão muitos dos bailarinos (no livro consta Baylharims), mandando a uns cortar orelhas, a outros açoitadas pelas ruas publicamente, assim Negros como Negras; o mesmo mandou fazer em algumas partes donde tinha noticia havia sacalamentos (cerimônia ambunda de cura), e feitiçarias, invocando neles o Diabo, mandando apanhar estes tais, principalmente o


motor deles que eram os feiticeiros, se fazia neles exemplar castigo, e nos mais que assistiam aquelas Diabolarias.

Teve o Governador notícia que um Negro descido do Sertão dentro, vinha pelos nossos Sovas Vassalos de Sua Majestade fazendo uma grande Cisma, chamando-se e apelidando-se Suqueco, que derivava que ele era só no Mundo; e como tão singular no Apelido, acudia muita gente a ele a buscarem remédio a seus males, porque em todas as Artes e maldades se fazia perito, assim de curar todos os males, e dar saúde a Enfermos, como para quem quisesse ter filhos, que não paria por ser estéril, e para que parindo fossem Gémeos; com estas embustias e maldades tinha já grande séquito, e o seguia muita gente; e era tanto o crédito que davam a suas coisas o Gentio e muita gente batizada, que mandavam benzer, ou maldiçoar, se pudera melhor dizer, as sementes com que haviam de semear as terras, para que com aquela virtuosa ou malina benção darem fruto; (...).

Tendo o Governador de tudo notícia, e vendo era necessário apagar aquele fogo, antes que causasse maior incêndio, e dando tratos ao seu bom juízo, e buscando modos para o poder haver às mãos aquele cismático, que se fazia Deus na terra, procurando a paragem e Sova onde estivesse, porque como andava apregoando as suas diabólicas virtudes a todos os Sovas corria e todos o desejavam nas suas terras, foi lhe dito como estava esta boa peça em a bamza e morada de Angola Quiaito (...)



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