Religião e Estado 24 (no L. 4 das Ordenações Filip.)

 África Central e Oriental 2  - 



Dando continuidade aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA, Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680Tomo I -; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.

Aqui transcrevo um episódio que me pareceu doloroso, que revela a crueldade do que era, na realidade, um confronto de religiões: O Governador de Angola, representante colonial, simula estar doente e pede auxílio do curandeiro nativo. Quando este aparece, é preso e morto (pp. 367-372/209-212pdf): 

Sabendo como dissemos que estava na Bamza do dito Angola Quiaito, e como o dito Sova tinha ido a sua terra que assistia sempre em Masangano ao Governador, e parece que tinha ido ver aquele portento de Santidade ou de malinidade, que a ventura lhe tinha trazido a sua terra, para o Governador sair com o que tanto desejava, formou uma estratagema, vendo que só por ela o poderia haver às mãos, que de outra sorte por mais que fizesse lhe haviam de dar escapula, e foi ela fingir-se doente, deitando-se na cama, fazendo-o assim mandou chamar a sua terra e banza ao Sova Angola Quiaito, que distava daquela Villa de Masangano quatro léguas aonde morava, mandando-lhe dizer que amizade era a sua, pois estando doente o não vinha ver; com dito recado, veio logo o dito Sova, ao qual estando presente se queixou o zeloso da honra de Deus, em como estava com grandes dores, e que não havia Medico nem Surgião (cirurgião?) que lhe desse remédio a seus males, e que era força buscar os Curadores hervolarios (herbolário?) da terra para tomar suas Medicinas, a ver se se achava melhor; que tivera por noticia, que à sua terra e banzo tinha vindo um Curador de grande fama, que lhe tinham gavado muito que curava muitos males intrínsecos; que folgaria lho fosse buscar para o curar, que ele lhe pagaria mui bem: com aquela fala ficou o Sova muito alegre em ver que era tal a fama daquele diabólico Negro, que até mesmo o Governador se queria curar com ele, e tomar as suas mezinhas; com o que disse que logo o ia buscar, e o traria.

Dali a dois dias se ouviu grande matinada e algazarra ao largo pela outra banda da Lucala, que até àquela paragem chegavam as terras e Senhorio daquele Sova, tocando muitos instrumentos de alegria, como eram, Engomas, Marimbas e Gonges, Pandeiros e Maçanzas e Zaçazaças, fazendo tudo um grande estrondo, vindo todos sangando a modo de guerra, dando muitos lozos e apupadas, trazendo muito Gentio em sua Companhia, e acompanhamento, festejando todos o vir aquele seu maior feiticeiro curar a pessoa do Governador, vindo a Cavalo em sua Rede que o traziam pelos Ares, com aquele Sova em outra Rede que o vinha acompanhando.

Havia o Governador prevenido da outra banda do Rio Lucala um Cabo com Infantaria para logo ali o prenderem, e os do seu séquito; assim com foram chegando à passagem do Rio, foi a Infantaria rodeando por fora em Cordão, ficando da banda de dentro o Grão Mestre Diabólico com alguns dos seus, e o mesmo Sova; a turba multa do acompanhamento ainda agora foge e corre com os seus magníficos instrumentos com que vinham tão de festa, que se lhe virou em tristeza; não havia nenhum Negro que naquele fino feiticeiro quisesse pegar por mais que os mandaram, guardando aquele respeito, e também por temor de os não empecerem seus feitos; só um Negro do Governador chamado o Somgo lhe perdeu o respeito e cortesia, abalançando-se a ele, e amarrando-o muito bem; este o prendeu, o qual era da Província dos Somgos, onde guardavam diferentes ritos, e costumes, e este Diabólico era de contraria Nação, e Linguagem, causa porque foi tão afoito: com ele se apanharão juntamente seus ídolos, e Badulaques, e imundícias Diabólicas com que invocava o Pai das trevas, e fazia suas curas, com alguns Escravos de sua conta, que lhe haviam dado os Sovas por onde havia passado, em obsequio de ser tão afamado feiticeiro.

(...)

…era Negro Corpulento de Cara bem assombrada, representava gravidade; o que visto pelo Governador, mandou em um alto junto à Igreja de São Benedito, que de todas as partes se descobria, fazer um cadafalso, e muita gente com Lenha de que se fez ao derredor uma grande fogueira, e deu por ordem ao Ouvidor Geral, que então era Domingos Luís de Andrade, por Francisco de Figueira se ter aprisionado na Barra do Bemgo, e ao Licenciado João Soares Pacheco, que se se reduzisse, lhe dessem garrote e o queimassem, e se não fosse queimado vivo.

Pelo caminho Lindo para a fogueira, assim como lhe punham o Santo Cristo diante virava a Cara para a outra parte sem se reduzir; e excedendo a ordem os executores da Sentença lhe mandarão dar garrote, e depois o queimarão, de que o Governador se ressentiu muito em haverem excedido a sua ordem, em o não queimarem vivo como tinha ordenado: foi este tão público e exemplar castigo coisa, que deixou a esta gentilidade admirada para exemplo de se não desaforarem, como este idólatra Cismático tinha feito, e ia fazendo, se não acudira a isso um tão Cristão e Católico Governador, zelando a honra de Deus, e sua Santa fé Católica; mas bastava ter sangue tão fidalgo, e ser de tão boa maça para produzir semelhantes efeitos.



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