Religião e Estado 25 (no L. 4 das Ordenações Filip.)
África Central e Oriental 4 -
Sobre os juramentos da Angola do Século XVII, CADORNEGA informa que se chamavam Bulungos[1]. Eram aplicados por “adivinhos” ou “feiticeiros”.
Ao falar da vila em que estava a rainha N’zinga M’bandi (Rainha Ginga), CADORNEGA diz que ela tinha as casas dos feiticeiros e adivinhadores no melhor lugar da praça. CADORNEGA informa também que os médicos e cirurgiões nativos eram chamados de Gangas e os padres católicos eram chamados de ganga Amiça. Em outro ponto do livro, CADORNEGA dá notícia de gangas que prediziam o futuro.
(...) …no melhor lugar da Praça as casas de seus feiticeiros e adivinhadores, que em estas ocasiões, e em outras muitas foram falsas suas adivinhações, as quais estavam cheias de mil imundícies, e boxinifadas (DELGADO, no glossário, pp. 601/334pdf ed1940 - BOXINIFADA-É moxifinada; vede esta palavra; MOXIFINADA — mistura de vários ingredientes, comidas, bebidas. S. o a. é — pequenos objetos, alguns imundos, de que se servem os feiticeiros.) que causavam espanto a quem as via, tendo nas portas as divisas de quem as habitava, que eram muitos Chifres Cheios de sujidades, peles e Cabeças de diversos Animais, com diversidades de Raízes de paus e ervas para aplicarem a suas diabólicas curas, sendo estas as mezinhas; e parece que o Pai das maldades, vendo as coisa dos seus devotos Gangas [Gangas chamam aos seus Médicos e Surgiões (cirurgiões); E ganga Amiça chamam aos nossos Sacerdotes. (Nota marginal do Autor).] e feiticeiros, que tanto o tinham exaltado com enredos e mentiras, que estavam ultrajadas de gente que o não venerava como faziam aqueles seus embusteiros e enganadores, causou um incêndio tão terrível, e medonho, que ardeu a maior parte do Quilombo e Bamza, entrando todas as Casas diabólicas, onde saía um fedor que se não podia suportar;(...)
Sobre as predições (p. 446/247pdf):
O primeiro que deu motivo em como o Flamengo levantava daquele sitio, foi um Negro Xingaleo do nosso Quilamba Mulundo; a estes Xingales [Nota de rodapé aparentemente de DELGADO (p. 446/247pdf): Xingale o que hoje nós chamamos Xingiladores. É do verbo kuxingila, magnetizar (fazer com que uma pessoa tenha o magnetismo animal)] fala o espírito maligno dentro deles, e os tem por seus Adivinhadores, com quem consultavam também os seus bons ou mãos Sucessos, e o que eles prognosticam, é, o que creem, como nós outros nos Evangelhos; este tal, estando tomado daquela malignidade, que lhe vem por tempos, quando deles é invocado, começou a dizer que o inimigo se retirava; se pode haver Diabo bom e que dê boa nova, este foi um deles; (...).
(esta é uma continuação aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA, Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo I ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)
[1] Bulungo, conforme DELGADO, é o seguinte - [DELGADO, no glossário do livro de CADORNEGA – p. 612/340pdf ed1940): BULUNGO — (mbulungu) prova da bebida da casca dada pelos feiticeiros para se saber se o acusado é criminoso ou não.—É uma bebida feita de uma casca ou de certos vegetais eméticos (Eméticos são medicamentos ou recursos destinados a indução do vômito, úteis em casos de envenenamento ou demais circunstâncias onde o esvaziamento gástrico deve anteceder qualquer medida. – acesso em 23/5/2020) que qualquer acusado de um crime bebe e toma da mão do feiticeiro—se morre era culpado; se vomita era inocente; mas o feiticeiro é que prepara a bebida carregando ou diminuindo a dose conforme o paciente lhe pôde pagar ou a sua família; se pagou, o feiticeiro diminuiu a dose; se não pagou, o acusado morreu.].

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