Religião e Estado 27 (no L. 4 das Ordenações Filip.)
África Central e Oriental 6 -
Nesta postagem transcrevo a narrativa que CADORNEGA faz sobre nativos africanos que eram comerciantes (no texto são denominados “tratantes” por ser a palavra com que se designavam os comerciantes, ou mercadores na época). No mesmo trecho abaixo transcrito, se atribui a ferocidade de um ataque de leões, a estarem estes animais encantados por obra de um Sova (Soba) importante do lugar.
O carreto de levar aquele zimbo a Congo e ao mais Reino custa muito porque é de muito pezo e se pagão muitos xicacos pelo caminho e passagens dos Rios que são como Aduanas, Rendas e Direitos Reais daquele Rey, e ainda assim tem conta e se leva muita quantidade pela Escravaria da gente portuguesa e Gentio alugado, e por outros a que chamam Mubiris, negros tratantes que correm todo aquele Reino, e todas as mais partes; são gente como Ciganos não nos furtos se não em andarem bolantes, entrando em toda a parte onde há negócio e não bolem em coisa que levam contra vontade, que são temidos e respeitados pelos terem por grandes feiticeiros, e em dizendo é coisa de Mubiri ninguém lhe toca. p. 272
Chegado o Capitão mor com sua marcha ao Rio Coamza onde havia mandado prevenir algumas Canoas para passar com seu poder aquele caudaloso Rio (...); (...) assim que esteve passado com o seu Exército daquela banda do Libolo chamada antigamente Atumba começou a ter peleja; se não foi com o Gentio daquela dilatada Província, foi ao menos com ferozes Leões que se presumiu como de feito vieram encantados por arte mágica e diabólica, pelo Sova principal, Senhor daquele território a fazer oposição à nossa gente, como fizeram em parte despedaçando com suas ferozes unhas e terríveis dentes alguns Negros nossos; sendo o motor destes encantos um Sova poderoso, Senhor de muitas terras e Vassalos por nome Gumza Anbambe, o Galo e Valente daquela Província, que o seu nome de Gumza demonstrava a opinião em que era tido, porque Gumza, (Ngunza, poderoso) na língua e idioma da terra se deriva daqueles que são valentes guerreiros, de que este de que falamos tinha a fama, e disso se jactava por haver pelejado duas vezes e defendido com ajuda de alguns Portugueses, com a guerra e poder do nosso Iaga Casangi que o vinha a destruir, e com outros Sovas, e Iagas poderosos daquelas Províncias o que tinha muito ensoberbecido: um dos Leões do encanto foi morto pelo Capitão mor, o que foi anúncio de bom sucesso. Coisa factível e certa é que nestes Reinos de Mágicos e encantadores, principalmente na Provinda da Lamba onde há Negros e Leões encantados com umas diabólicas artes, lhes compram outros Negros Gentios que tem inimizades com Sovas fidalgos, Senhores de terras e Vassalos, lhes botão estes ferozes animais em suas Povoações, para com isso lhes destruírem suas terras e Vassalos.
(esta é uma continuação aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA, Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo II ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)

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