Religião e Estado 34 (no L. 4 das Ordenações Filip.)
África 13 -

Nesta postagem veremos a descrição que CADORNEGA dá dos rituais que os habitantes do Ndongo (hoje Angola), no século XVII, praticavam quando do nascimento de gêmeos, do nascimento dos primeiros dentes das crianças, da primeira menstruação das meninas e dos tratamentos de certas enfermidades. Como parte dos tratamentos de doenças (aparentemente como medida para evitar o contágio) está a colocação de badulaques em encruzilhadas (palavra e ritual que conhecemos até hoje no Brasil).
Em o nascimento deste gentio há muita algazarra e bailes; e logo lhes põem os nomes dos ídolos em quem adoram, a quem o pai e mãe os dedicam [E se parem gêmeos, fazem muitas superstições, que todas as que vão ver a parida, antes de entrarem hão de levar umas ervas do campo que elas conhecem, e as hão de botar sobre a casa antes que entrem, onde está à porta da banda de dentro, avó mãe ou parenta com um vazo de suas mochinifadas, com um estrapalho como hissopo, vai ruciando a todas as que entram, porque não impeçam nem deem olhado aos gêmeos e parida, com outras mil imundícias e superstições diabólicas. (Nota marginai do Autor).]; e na nascença dos dentes fazem também grande máquina e festa, vestindo aos filhos os melhores panos que têm de seu uso e os mais atavios que podem, havendo muito que comer e beber; e se acaso por mal de pecados lhes nascem os de cima primeiro que os de baixo, têm nisso grande agouro, a que eles chamam quizila e superstição; e se o podem matar o fazem, porque têm para si que os tais hão de ser causa de toda a sua parentalha morrer; e lhe há de vir pelo tal muita desgraça e trabalhos.
O mesmo festejo e matinada e comezaina fazem com a filha fêmea quando lhe vem o uso ou mestrança; e até não lhe vir, não consentem que tenha ajuntamento com varão, porque têm para si, que, se antes o fizerem, nunca crescerão e terão males, e concebendo, parirão algum monstro: as fêmeas estimam mais, porque a honra das mães está em serem as filhas mas mulheres e requestadas de muitos, que lhe ganhem por seu maneio, para o sustento dos pais; e isto milita em todo este gentio sem exceção de pessoa. (pp. 256-258/834-838pdf)
Também estando algum deste gentio doente de algumas enfermidades fazem em suas panelas suas lavagens de ervas, em que tomam seus banhos e, depois de o fazerem algumas vezes, mandão botar aquelas bochinifadas em caminho em que faça encruzilhadas, e têm para si que o primeiro que passa por cima leva com sigo a sua doença; e fazem muito os que passão pelas estradas, de não pisarem aquelas coisas e se desviam quanto podem delas, por se lhe não apegarem os males daqueles que ali as mandaram botar, e sucede às vezes para o Demo os ter de sua mão, pagar-se-lhes algum mal, a que atribuem passaram por onde aqueles badulaques (No sentido de coisas miúdas, de pouco valor, empregadas para os feitiços.) estavam; e creem naquilo como nós nos Santos Evangelhos.
(esta é uma continuação aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4 do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA - , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo III - - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)
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