Religião e Estado 37 (no L. 4 das Ordenações Filip.)
África 16 -
No trecho a seguir, CADORNEGA explica o que era um Zumbi n’Angola seiscentista e descreve a relação dos nativos com a morte e os mortos. É narrado um episódio em que, por obra de um feiticeiro, um morto sai de sua sepultura.
Também o que é zumbi (Nzumbi, defunto), é coisa que os põem em muito cuidado, que vem a ser sonharem com algum defunto ou parente, ou qualquer outro que tenha falecido, logo imaginam que lhe vem pedir alguma coisa ou coatar (Coatar, aportuguesamento de kukuata, pegar, buscar, como traduz o Autor), que é pegar ou buscar para lhe irem fazer companhia, sobre o que fazem oferendas e sacrifícios sobre as suas imbilas, que são os seus jazigos; e, quando com isto se lhe não tira aquela imaginação, se vão definhando e morrem sem falência (Sem falência, i., é, sem falta. «Não tem discurso», quer dizer «não tem raciocínio».): bem sabem os entendidos que a imaginação faz causa, e muito mais em gente bárbara que não tem discurso para distinguir o bem do mal.
E para que se veja quão enredado os tem o pai das cavernas infernais a esta gentilidade para que estejam crentes, que os defuntos vêm a pegar ou coatar como eles têm para si, aos viventes da sua ralé [Ralé, i., é, casta, igualha (ralé ou relé).], sucedeu que um sova dos Dembos, chamado Calumbo Camgimbo, de quem atrás havemos feito menção, havia na terra e senhorio deste sova, que é mui dilatado, um feiticeiro finíssimo; e além de fazer todo o mal e dano que podia aos vivos, queria, por sua mágica e ciência diabólica, ter também domínio e superioridade sobre os mortos; de tal sorte que foi à sepultura de um, que também havia sido da sua faculdade e arte, e o esconjurou com as palavras de sua negromancia a que viesse falar com ele; o qual, com a força do esconjuro, saiu de sua imbila [Imbila chamam às suas sepulturas. (Nota marginal do Autor)], ou o pai das maldades em sua forma que seria o mais certo, para honra de quem o havia servido nesta vida tanto, unindo-se com o vivente aquele cadáver sobre as suas costas; e por mais que se quiz desenvencilhar e afastar dele, não pôde; este sucesso admirável havia sucedido no campo em segredo, que o não havia visto ninguém e fez se público por não poder nunca largar aquela carga que trazia sobre si com toda a sua ciência, de que se prezava tanto; até que chegou este caso às orelhas daquele fidalgo dembo, que sendo dele bem inteirado, mandou logo por um gonge [. (Nota. marginal do Autor)] lançar um pregão por todo o seu senhorio — que cada um de seus vassalos trouxesse um pau de lenha a uma grande praça ou terreiro que havia junto da sua banza e morada; ao que logo acudirão todos, dando o devido comprimento ao que ordenava e mandava aquele seu senhor Calumbo Camgimbo; com que se fez uma ruma (Gonge — de ngonge — ler — gongue. Ruma — montão.) grande de lenha, pelo número grande de vassalos que possui. Feita esta prevenção mandou amarrar aquele grande mágico feiticeiro, e o mandou lançar à vista de todos os seus sobre aquela quantidade de lenha, mandando-lhe dar fogo, se fez em pó e cinza vivo e defunto ou sua forma, com assombro de todos os circunstantes, pelo fedor e grandes estrondos que daquele incêndio saiam com o que acabou daquela sorte aquele segundo Simão Mago, que não se contentava de matar os vivos e ter superioridade sobre suas vidas, se não querer também tê-la sobre os cadáveres defuntos; que ainda que havia sido mau, não tendo o lume da fé, não permite Deus se zombe com eles, como tem sucedido a muitos que tinham mais lume e conhecimento da nossa Santa Fé Católica do que a tinham estes.
(esta é uma continuação aos prolegômenos à abordagem do tema Religião e Estado no Livro 4do Código Filipino, prossigo transcrevendo trechos de CADORNEGA - , Antônio de Oliveira de. História Geral das Guerras Angolanas – 1680 – Tomo III - - ; Lisboa, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1972. Reprodução fac-similada da edição de 1940.)

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